sábado, abril 14, 2018

Nova tradição na Semana Santa de Diamantina



Marcelo Brant - foto pessoal
No dia 27 de Março deste ano iniciou a EXPOSIÇÃO LAÇOS, que conta com 23 artistas com obras que versam sobre artes visuais, fotografia e poesia. A exposição ficará aberta até o dia 28/04 no teatro Santa Isabel e contou com a curadoria do Artista Plástico diamantinense Marcelo Brant.
Não é a primeira vez que uma exposição como esta, tão grandiosa e diversa, tem sido elaborada e planejada por Marcelo Brant. É já uma tradição da Semana Santa para os habitantes de Diamantina e seus turistas a contemplação por mais este momento artístico. Talvez já estejamos esquecendo de refletir sobre a tradição que grande parte da população diamantinense devota à esta intervenção artística-literária, e que é fundamental para a perpetuação de Diamantina, e até mesmo para a tradicional Semana Santa mineira.
Envoltos em um clima psíquico de santidade e do expurgo dos pecados, invocados pela Semana Santa, o que é uma tradição na cidade e afeta profundamente a dinâmica da Diamantina, seja pelas festividades, pelas representações que remontam os passos de Cristo até seu martírio ou pela exposição no Teatro Santa Isabel.
A exposição, como todos os anos, busca uma ressignificação para o tão batido conceito de Semana Santa. Sempre com temas que versam sobre o entendimento humano da união; conduz sua assistência para uma autoavaliação de seu estar no mundo. Neste ano a temática: LAÇOS condiz com a percepção do sentido de tradição. Ela que é uma acepção do entender estrito de “passar adiante”, de “entregar” e encontra repouso no sentido de laço que a exposição invoca.

Trata-se da definição simbólica de união, de energia, de força, mesmo crendo que também poderá remeter às amarras grosseiras que tradições preconceituosas e vexatórias impõem à modernidade. A EXPOSIÇÃO LAÇOS lança luz aos diversos entendimentos que este símbolo prescreve, e serve à sociedade um acurado olhar sobre a beleza, a fé e a união.
 discurso da tradição, ressignificado em laço pela exposição, não é especializado justamente porque não exige nenhum nível profundo de intelectualidade, mas do sentir. Um sentir que emana dos artistas que se impõem nas obras artísticas e nos toca, criando laços entre nós, meros contempladores. Nosso entendimento da sacralidade da Semana Santa e nosso estar no mundo são unidos pelos laços destes 23 diversos artistas iniciantes e consagrados. Basta um olhar, basta contemplar por minutos para que se crie um laço de empatia pelo que a curadoria de Marcelo Brant nos presentou. 
Registros - Raquel Galiciolli

Diamantina com a Exposição LAÇOS é laçada para o belo que as novas tradições podem produzir.

sábado, dezembro 09, 2017

DA CAPA AO INFINITO: Não há um The End


As diferentes vanguardas europeias que entraram no país trouxeram consigo suas próprias características, estéticas e peculiar visão de modernidade. O Expressionismo espalhou extremos emocionais, inquietação e espiritualidade, assim como o Cubismo em seu quebradiço emaranhado de palavras dispostas a conceber ora uma imagem e ora um sentimento. E o Futurismo, que aqui chegou, incumbiu à linguagem de uma força política alicerçada em uma espontaneidade no claro intuito de exprimir a ideia de velocidade e violência. Essas linguagens artísticas por vezes se misturaram, por vezes nem tanto. De toda maneira auxiliaram o movimento literário Modernismo brasileiro, nos infantes anos da década de 20, a criar um dialeto literário próprio; verdadeiras portas de entrada para entendermos as faces temáticas e estéticas, muito importante à literatura brasileira do século XXI. A obra de Erre Amaral, “Do mundo, suas delicadezas,” 2017, publicada pela Penalux realiza a junção proposta pelo movimento modernista: unir por ligamento das vanguardas europeias os movimentos literários que a antecederam como obra artística literária.
O que chama a atenção no romance-épico é a capacidade do escritor, ensaísta, teórico e poeta de conjugar na sua linguagem uma escassez e um excesso de sentimento, dualidade antitética encontrada na literatura brasileira desde o movimento Barroco. Seu olhar à personagem Pretinha emancipa da miséria que são acrescidas as personagens e a personagem principal no ambiente – A vila do Biribiri, esta que está encrustada no Parque Estadual do Biribiri na Serra do Espinhaço em Minas Gerais, ganha áreas de lugar universal. Pois ali reina e ganha força os personagens puros e erotizados que vibram ao sabor do tempo, não demarcado pelo autor, mas presente. Entretanto se faz impresso nas cicatrizes que Pretinha carrega na alma e nos lugares por onde tatua sua passagem no decorrer de sua existência.
Em síntese a obra literária divide-se em duas partes e narra à epopeia vivida pela protagonista, desde sua infância até o derradeiro destino da vida adulta. Nomeadamente uma ficção, mas supostamente inspirada em Denise Marques da Silva, a quem Erre dedica seu livro ‘in memoriam’. Novamente o autor não nos revela certeza quando ao período histórico em que a narrativa se passa, mas dá pistas, visto que os resquícios da escravidão que pairou sobre o sertão mineiro no século XIX respingam em sua criação. Obviamente que o leitor atento sentirá nisto o sabor da narrativa épica, não como a genealogia mítica proposta por Hesíodo, ou as sangrentas guerras narradas por Homero, e tão pouca na melosidade quase romântica de Camões, mas um pouco próximo das ‘borboletas que brincam ao luar no dourado do espaço’, nos versos épicos de Castro Alves.
Nas circunstâncias sociais – quase condoreiras – vividas pela personagem central percebemos naquilo que o geografo afro-brasileiro Milton Santos afirma como “a força dos fracos é o seu tempo lento”. Em “Do mundo, suas delicadezas,” testemunhamos um passar do tempo além de lento. E é neste jogo de ter e não ter tempo que as personagens sobrevivem por meio de uma força insuspeitada, em que essa força dos fracos se revela na ação humana. Em especial a vicissitude social da mulher negra que, representada por Pretinha, vivência na experiência que a escassez a lega, como o abandono e sua sobrevivência com os filhos.
A trama foge ao convencional dos atuais discursos acerca da mulher, e possibilidade muito mais que a construção de uma narrativa social, ou um balançar de bandeira ilustrando sua obra em panfletaria. Para si a mulher é um ser, não objetivado (santa ou puta) como propunha o movimento romântico, mas um ser que vive. Não é de estranhar que a intertextualidade presente no capítulo “A carne mais barata do mercado” nos lance aos braços sonoros de Elza Soares. Em sua gênese de fundo e forma, temática e estética, endereça uma proximidade com o outro. E este outro é feminino e estimula uma invenção de novos modos de compreender o mundo e suas infindas delicadezas.
Será óbvio ao leitor encontrar as nuanças que o romantismo proporciona a todo romance, marcadamente impregnante desde Madame Bovary por Gustave Flaubert, em especial nas páginas inicias na qual identificamos quase um clamor ou recordação de pai, que se faz ouvir nas palavras amorosas do narrador, e que também nos remete a uma declaração de um apaixonado. Entretanto o autor nos surpreende com a busca por uma inovação estética. O livro será nulo se não lido da capa ao infinito. Visto que Erre Amaral brinca e testa a atenção do leitor. Principia com seu título “Do mundo, suas delicadezas,” sem precisar um fim, e assim o faz com toda a obra. Desta maneira o leitor inicia o miolo do romance já da capa. Não há um The End (não, isto não é spoiler) ou momento que o autor nos afirma que acabou, mas sugere que as páginas continuem a ecoar pelo vácuo do infinito assim como o mundo, as delicadezas ou a própria existência.
Por narrar em estrutura poematizada, sem perder a fluência que a prosa impõe, aos menos ávidos em poesia passará despercebido à falta do ponto final. Mas com certeza chamará a atenção o excesso de vírgulas que os versos possuem. Além deste quase abolir de pontuação frasal – herança do futurismo – os expressivos adjetivos e advérbios, que constroem a fluência do narrar por suas conjugações demonstram claramente que a pontuação está anulada na continuidade do estilo vivo. Inovação que não o desvincula da influência construída por Guimarães Rosa com seu traquejo coloquial na terceira geração modernista. Claramente que o convite ao parnasianismo se faz, sem contudo cair no abismo das formas fixas, em especial sonetistas em métricas alexandrinas e decassílabos perfeitos como templo gregos, que ecoam de si rimas ricas e raras. Ou sobrepujar-se do excesso de símbolos herméticos e vagos que sugerem demasiadamente ao leitor um vagar colorífico ao qual o simbolismo se finda. “Do mundo, suas delicadezas,” bebe destas fontes e brinca com as caraterísticas primárias destas manifestações literárias.
Contudo, mesmo imbuído em uma estética irregular nos estrofes e versos, desvirtuando a formalidade parnasiana, e salpicando aqui e ali com simbologias sem divagar ao vazio ou afixar-se na palavra ora seca, ora oca ou ora cheia do modernismo, o autor (re) moderniza a literatura. Isto porque se constrói na obviedade que a liquidez contemporânea impele, por sua fluidez de assuntos que muda a cada estrofe, entretanto não deixa que o leitor se perca ou fuja da atmosfera que a trama possui. Assim, o romance é possessivo, pois não permite que o leitor se perca ou fuja de sua verossimilhança.
Não é de estranhar a ligação que se atribui, aqui, de “Do mundo, suas delicadezas,” e “Caim”, de José Saramago. Neste o saudoso autor português em seu jogo estético cria uma narrativa quase desesperada, sufocante, acelerada, violenta e brilhantemente engendrada na releitura do personagem bíblico Caim. Saramago na prosa findou sua obra, na qual ninguém sobrevive à vingança de Caim contra Deus com um explicito enxugamento de pontuação frasal, denotando a influência futurista em sua obra. Já na poesia, “Do mundo, suas delicadezas,” nos apresenta em passos largos um fluir narrativo, sem as travas dos pontos. Desta forma Erre Amaral se enfileira nas linhas contemporâneas da literatura moderna brasileira, (re) velando os novos passos do pós-modernismo literário brasileiro.

Não nos é omisso dizer que há uma voz literária forte e cada vez mais variada no Brasil, há quem diga que no início da nossa história literária ela estaria muito vinculada a uma realidade bastante ligada ao que vem de fora (estrangeiro) depois enveredou para ênfase nos discursos nacionais. Hoje nossa literatura é antes de tudo uma face expressiva do nosso multifacetado espelho nacional. Se a literatura brasileira dialoga com o que é nosso, ela não é produto de seu contexto, mas ajuda, antes, a produzir o país que hoje chamamos de Brasil, e é este olhar para o país que “Do mundo, suas delicadezas,” nos oferece sem fim.


Esta resenha foi apresentada no apresentado no lançado de “Do mundo, suas delicadezas” na cidade de Diamantina-2017, no evento Café Literário; também se encontra na revista digital Pausa: Revista de Arte.    


domingo, junho 18, 2017

KELLY: Minha leitora fiel



A brincadeira de aventurar-se no mundo das palavras, e se arriscar escrever carrega consigo uma gama de possibilidades. As inevitáveis e necessárias críticas, as surpresas dos desafetos e dos novos afetos, os incrédulos (é sua escrita?), os elogios, e os leitores. Este último acredito eu, é a maior conquista. Ter leitores para um autor amador e iniciante como eu, é mais que um privilégio, é a realização de que cheguei a alguém por meio das minhas palavras.

Este é o agradecimento para minha fiel leitora: Kelly Souza.

Quando nos conhecemos, alguns anos atrás, ela nem sabia direito que eu escrevia, mas um dia me disse: Quero te ler! Acompanhou-me por um ano pelo Facebook quando escrevi (praticamente em tempo real) meu conto-crônica “Relacionamento com uma gata”, e vibrou a cada publicação me pedindo mais. Quando estive em São Paulo para o lançamento do livro “Daqui e Dali”, uma Antologia de Poemas Latino-americanos. Um projeto do Eco Latinos da cidade de São Paulo; pude constatar: Eu tenho uma leitora!
Confiei e confio na leitura dela. Tanto foi, que me foi a primeira a ler, o tosco manuscrito, “Sereia presa na caixa d’água”.
Nosso relacionamento é estritamente escritor-leitora. Às vezes quando nos encontramos esporadicamente pelas mídias sociais, entre fotos de seus filhos e maridão. Acompanho sua vida e ela me acompanha a minha; vidas digitais. Mas sempre que dá conversamos, e ela me pergunta: Está escrevendo? Eu: Sim! Ela: Não esquece o meu.  Não, ela não é palpiteira. Pelo contrário, me deixa livre para produzir o que eu quiser, e se permite envolver com minhas palavras, sem me julgar – apenas adentrar em cada mundo que construo.

Kelly,
Sou imensamente grato por estes seis anos que estamos juntos escritor-leitora. Em uma carta para Goethe, Balzac afirma que o escritor deve escrever para ele, e não para quem o lê. Longe de eu querer discordar de Balzac, logo eu, mas não o obedeço. Você desvirtuou em mim a urgência de seguir o mestre Balzac. Eu escrevo para nós. Para mim, e para você.

Muito obrigado por ser minha leitora fiel!

Seu exemplar do “Sereia presa na caixa d’água” já está no caminho.
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