sexta-feira, junho 18, 2010

Sou uma cria de Saramago.

Onde nas vãs filosofias do existir imaginávamos ter Saramago? Como um deslize de Deus, ou uma incoerência do destino, ele homem, se fez chagas na política. Bom comunista das antigas que era não deixou a entrada do novo século deturpar seu engajamento. Mesmo quando ia para o passado, um de seus olhos estava necessariamente visualizando o presente. Buscando sempre a luz para clarear as ideias tortas dos homens. Exemplo radical disto é o romance “A Jangada de Pedra”. Não vamos esquecer o seu livro mais polémico, “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”. E aos noventa anos, o maravilhoso Caim, que deixa qualquer extremista religioso de cabelos em pé. Saramago mostrou o que é ser mestre, cuspiu em nós o que não queríamos ver, deixou as feridas expostas, treinados nos largou para pensar por nós mesmos. Até agora com sua ida para o descanso da pena, não deixa de criar polémica, como os críticos literários gostam de rotulá-lo. Saramago provou que a matéria não é eterna, mas suas obras estarão perpetuadas para o sempre. Eu tenho medo de não ter Saramago. Quem vai nos defender desta orla populista onde a verdade não é mais escrita? Quem nos trará luz entre a escuridão capitalista? Assim nos embuti á pensar o velho Saramago. Um contestador? Polémico. Sim, senão não seria Saramago. Não posso dizer que o verei em um amanhã pós a vida, estaria contra o que acreditava. Não vou dizer que é uma estrela guia, porque ele mesmo se dizia apenas um simples questionador. Mas carregarei seus enormes parágrafos, sentindo-me mais burro e mais cego agora. Repetirei seus escritos como um dogma, um dia rejeitado pela igreja, não atribuído por Deus, e direi que sou uma cria de Saramago. Nego-me a chorar. Um leve sorriso, quem sabe? E umas humildes linhas em homenagem no jornal no interior. Continuarei seguindo seus passos. Escrevendo, escrevendo, escrevendo... Mesmo sendo um jovem com os limites modernos e sociais. Sei que não irei te alcançar querido Saramago, mas ficarei firme como um cascalho nesta estrada literária, onde ganhou voz e permitiu que muitos outros fossem ouvidos. Não irei descansar nesta batalha de revelar que os poderosos têm de cair, que os humilhados têm de levantar-se e bradar aos castelos dos poderes, até que suas torres de “Babel” caiam, revelando que debaixo ou sobre a terra somos todos iguais, e semelhantes a Saramago.
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