sexta-feira, janeiro 28, 2011

O melro.

Com vocês a quarta palavra: Seborréia – Proposta por Mariana O melro.
Todos os atributos de verdadeiro homem ele tinha: a razão e a clareza para cuidar de um bom lar, a convicção de que ser fiel o faria ser mais feliz, e sem vaidade como um digno homem, áspero como uma pedra para os outros e afável como uma rosa para a amada. Este é João. Aquele que não queria ser como o pai, um beberrão que a mulher tratava como um dos sacos de batatas que carregava no mercadão municipal da cidade onde nasceu, aquela que acolheu a família dos avôs vindos do nordeste ainda na década de setenta, São Paulo. Escolheu pelo coração a mais formosa do bairro, a mais vaidosa, a mais desejada, a que faria seus dias mais bonitos somente com sua presença. Erro do homem, rasteira do destino e crueldade daquela que não tem o apercebimento de que ele é o melhor companheiro do mundo. No volante do ônibus que conduz das cinco da manhã até as dezessete horas, João pensava apenas na amada. Não se permite ao erro de atropelar a criança descuidada no bairro da periferia, ou ao idoso que não aprendeu a atravessar na faixa de pedestres e jamais discutiu com nenhum passageiro, de longe gostaria de ser como o Zé que foi baleado e morto a queima roupa por discussão com usuário do transporte publico. Tinha objetivo reto: chegar vivo e feliz á esposa, em seu santo lar. Doze anos de mel concedido por seu melro particular. Laura jamais imaginou que assim seria seu casamento. Queria as festas e o luxo, almejava a beleza do homem que João não tinha, talvez até um pouco de rispidez masculina. Mas não o bom trato que sempre recebeu. Em contra partida encontrava nele o coitado que lhe dava liberdade, e os mimos para fazer o que bem entender do dinheiro que tanto sofria no volante. A difícil escolha de comprar ao marido uma camiseta nova ou a bolsa da estação, sem duvida e facilmente resolvido o dilema com a compra da bolsa sem arrependimento. Trapos ao bobo sem corte e à ela a moda. Esta era a uma das Lauras existente nela. Nos braços do filho do pedreiro da rua de baixo era a Laura com fogo, com desejo de orgasmos incandescentes, entre as pernas dos vendedores de drogas do bairro vizinho era a recatada que saciava a todos os desejos do amante pidão e com o amigo do esposo, o filho do carregador de batatas que prometeu fidelidade eterna, era a vilã que ria do marido traído. Cinco da tarde, a fome esgana nosso João, sufocando-o até ver estrelas em pleno sol poente. Mas por que ligar para a fome se aquela que ama estará em casa a sua espera? Com os macios braços tratados a creme Monange perolado onde quer afogar o cansaço, e no seio dela planejar as férias tão esperadas, também no cheiro de perfume Avon quer o ninar para o sono merecido. Mas o amor o cega, e lhe tira a audição tal que não o permite compreender nas entrelinhas da piada bem contada de Laura a mandá-lo ao banho lavar a seborréia é na verdade o asgo daquela que em latente e crescente repulsa lhe quer expulsar do abraço sem beijo.

quarta-feira, janeiro 26, 2011

O direito do semáforo

Com vocês a terceira palavra: Remela. Proposta por Kátia. O direito do semáforo
Oito da manhã acorda o Senhor Rodrigo, advogado e grande conhecedor das leis; o café já esta na mesa e sentados os filhos. Retrato idealizado do que tem de ser uma família padrão e correta aos olhos vigilantes da sociedade. Nada foge ao seu convencional, apenas a pressa pelo despertar atrasado e a não vontade de levantar da cama mesmo com os gritos da loira, turbinada e fiel esposa. Vestir-se é obrigação, comer facultativo, cumprimentar a família antes de sair, ato ignorado, e que não necessita de perdão no jantar das dezenove horas. As cinco da manhã o pequeno Beto já estava de pé, as seis sem tomar o café estava na linha vermelha, saindo da zona leste rumo ao cartão postal da NewYork tupiniquim – São Paulo. Avenida paulista era o endereço do seu trabalho. Lá não é preciso possuir o ensino médio, tão pouco se precisa saber ler e ter dezoito anos. È necessário sorte. Muita sorte. Sorte para que alguém pare seu carro e aceite comprar suas balas. Mais sorte para que não seja agredido e uma dose de esperteza para fugir da tentação e de verdade fugir da realidade. Deixar-se envolver por uma entorpecente droga que o faça sonhar com o que não tem. Mas que na verdade estará o enganando, o levando a seguir a margem da sociedade, sem uma vara que o faça como agora equilibrar-se entre o não ter, mas sobreviver, e no final da tragada ser mais um por cento na contagem criminal da dura cidade. O Uno verde limão novo comprado a vista semana passada pelo Senhor Rodrigo esta a oitenta por hora, em um local onde o mínimo respeitável e aceitável pelas leis de transito é sessenta. Mas um cidadão convencional pode infligir algumas leis de vez em quando. Deixar de pagar alguns impostos, sonegar outros e é claro fazer uso de uma cultura que seja melhor que a sua. Afinal, como pensa Senhor Rodrigo ao dar o nó na gravata e ultrapassar o sinal vermelho, - todo o dinheiro que darei ao governo pagando impostos ira direto e sem parada no banco central para o bolso dos políticos, e o que a cultura brasileira tem de melhor para lhe oferecer do que o consumismo daquela outra? O que pode ser tudo verdade! Balas de bananas nas mãos de Beto. Oito e quarenta e cinco no Rolex de Rodrigo. O semáforo dá sinal de que o homem apressado pare e freie sua pressa, relaxe no banco de couro de seu automóvel e termine de arrumar-se. Mas para o menino o sinal e um capataz, com chicote na mão e olhos vermelhos de fúria, que á cada pequenas pausas o impulsiona mesmo no sol escaldante a continuar a labuta. Sem vontade levanta da calçada e é capaz de ouvir a voz da domestica e evangélica mãe lhe recitar um versículo da bíblia: “O trabalho edifica o homem.” O que é edificar? Sempre se pergunta o menino ao ouvir tal palavra sem sentido para ele, e talvez até para a mãe. O vidro de Rodrigo esta aberto. Beto aproxima-se. Seus olhos são suplicas para que o homem lhe conceda uma misera atenção e talvez faça negócio com ele. E o produto com certeza será deixado no porta-luvas do carro e comido posteriormente pela filha mais gorda que precisa ir ao medico para emagrecer de tanto que come. Ele pode dar-lhe um real pelas balas, tem poder para isso. Real, centavos, moeda que aprendeu a contar e conhecer pelo sufoco do desespero, única instrução que a fome permitiu ser fixada no cérebro do menino. Senhor Rodrigo olha para ele como um sem direito a moradia, sem direito ao auxilio do governo, sem direito a uma mísera e parca parcela dos impostos pagos pelo topo da cadeia social brasileira, um verdadeiro inseto que invade sua retina o importunando: - Moço compra uma bala para ajudar? Beto coloca sua humildade á negociação. - Não, e desencosta do meu carro favelado. Rodrigo rebate como juiz dando sentença de morte. - Posso ser favelado moço, mas minha mãe me ensinou a lavar a cara antes de sair de casa. Beto retruca com a moral do mocinho do conto, e eleva o sangue de Rodrigo a mesma temperatura do sol que derrete o asfalto. - Sai daqui se eu chamo a policia. Dá a replica Rodrigo mostrando seu poder de quem tem mais direitos na sociedade desigual. - Vai tirar essa remela do olho, seu rico imundo! Beto bate-lhe na cara sem ao menos tocar-lhe um dedo. Rodrigo volta-se para o espelho e sai cantando pinel ao liberar do semáforo.

Soneto á Amada

Essa cidade que me arremessa em marginais, dura E gentil aos meus passos, rasgando o céu com seus prédios Aproxima-me de Deus e me revela o mundo e sopra sobre mim Freadas, sinceros gemidos de uma vida, arquitetura morta. Essa cravada na pedra, brilhante qual a estrela D’Alva Abre-se aos meus tolos sonhos arrastados por suas avenidas È única de todas por onde passei que com verdade me achei E não te abandono por amor, só pelo amor ao abraço da morte. Essa recriminada pela evolução que os homens não acompanham A dor do esmagado por ela com grandeza de quem ama E guarda lagrimas de desalento da solidão em seus becos, sou eu. E essa cidade é São Paulo! – a deusa das minhas oferendas Certeza... – na moldura reta e intensa qual o sangue me é pela vida Nunca nenhum lugar foi tão perfeito, quanto você, Sampa

quarta-feira, janeiro 19, 2011

Traque.

Com vocês a segunda palavra: PEIDO. Proposta pela Chayane Traque.
Dos encontros de domingo ficaram apenas as recordações da passada infância; em plena atividade dos dezesseis anos Gabriel guardava na nostálgica caixa cerebral os sons dos sambas de família. Hoje ao redor do barraco de madeira onde mora com a mãe separada, no bairro Jardim Ângela, ouve-se com frequência apenas o “pancadão” do funk. Esta onda destruidora do que um dia pleiteou o samba como a voz poética do povo, lavando com sua vulgaridade como a água fétida do Tiete que lava a marginal em dia de chuva, é a titulo da mídia, a nova voz da periferia. Mas naquela noite solitária o burburinho da favela era outro, uma alegria antiga invadia a janela arrastando o adolescente a uma época recém passada, porem o pesar das mazelas atuais o fazia sentir que a doce época ha milênios já era distante. Os sons das novas crianças eram de sorrisos, as conversas eram de festividade sem necessidade. Pegou-se sorrindo sobre o nó da garganta abaixo do queixo e cantou junto. Quero ver quem vai fica-ar nesta roda sem sambar Quero ver quem vai fica-ar nesta roda sem sambar Quero ver quem vai fica-ar nesta roda sem sambar Fundo de quintal Berço de terreiro de bamba Vamos que o pagode é o samba he laia-laia Fundo de quintal Na palma da mão abre a roda Já faz tempo agora que é moda he laia-laia. Fundo de quin... O tempo parou. Ninguém sorria, nenhuma criança gritava, o som estancou no inicio da musica. Um estrondo se ouviu. Pá... Pá... Pá... Pá... Era o tiroteio invadindo a vida de Gabriel, tirando-o da nostalgia regressa do passado e o jogando no turbilhão da sua realidade. Para onde fugir? Que lugar se esconder? As madeiras do casebre eram como finas folhas de papel jornal, prontas a romper pela invasão da bala que não era a distribuída em festa de Cosme e Damião. Cogitou chamar a policia, gritar por socorro, mas era a própria policia retribuindo o não pagamento de propina, a lei cobrando sua participação no sujo tráfico da vida subterrânea na favela. Era a verdadeira São Paulo pulsando debaixo da camiseta do menino pobre, sem expectativa de vida e sem os muros protetores dos condôminos luxuosamente residências daqueles que a tudo assistiam pela TV. Faltou força ou energia diante do perigo, os músculos se contraíram na involuntária reação química do corpo, e o psicológico regressou a frágil infância no reflexo do medo. Debaixo da cama. Um menino debaixo da cama, encolhido feito feto, indefeso feito inseto, esmagado por aquilo que não entendia e suprimido pela realidade que não queria. O pá-pá-pá parou. Os ouvidos de animal atendo ao menor movimento do inimigo lá fora, a tensão passou o ato de sair debaixo da cama tornou-se vergonhoso para a masculinidade já presente. Mas o corpo não parou de reagir a convulsão causada pelo susto, e dos fundilhos da calça ecoou o som do alivio límpido, longo em forma de pum, esvaziando o interior do jovem Gabriel, retirando dele aquilo que não prestava. ...tal Berço de terreiro de bamba Vamos que o pagode é o samba he laia-laia. Regressou o som.

terça-feira, janeiro 18, 2011

A moda da verdade

Começo então esta coletânea de contos com as palavras propostas pelas meninas da telemetria. Está primeira palavra é, rufem os tambores, gritem as concorrentes ao Oscar, escandalizem-se os jornalistas, tampem os olhos os moralistas: GOLFAR. Proposta pela Laura. Espero que gostem. Se não gostarem tudo bem, eu já publiquei aqui no blog mesmo. Gargalhadas de um medíocre escritor que não tem medo de expor sua opinião. Eu sou assim!
A moda da verdade Essa felicidade, uma incógnita prisão regendo os homens, que enxergam na liberdade o leve gosto daquela que por também leves momentos se apresenta nisto que chamamos de vida. A felicidade não existe sem o conhecimento, a verdade. Mas o possuir a verdade esta é infelicidade. Saber que a felicidade, esta como as placas pela estrada e a vida é o carro. Perceber as placas se vê a felicidade, mas você passa e a deixa para trás e muitas das vezes nem a nota. Periferia de São Paulo, onde mora Rejane, Capão Redondo seu reduto, seu refugio, sua margem como a titulo para os estudiosos da nossa sociedade. Levantar às cinco da manhã, trabalhar em dois empregos, almoçar em quinze minutos e pousar a carne cansada na cama vazia todos os dias na uma hora da manhã. Crueza de uma solitária, daquela que lamenta que a felicidade corre para longe de suas ideias. Chora no travesseiro e a noite em seu negrume é sua companhia. Ela sim não a vê como mais uma. Não é a estatística da semi-analfabeta, também não esta traficando, tão pouco roubando a casa dos ricos nos ricos bairros desta tão desigual cidade - São Paulo. Esta desolada na frenética vida do existir pelo existir, estar na terra pelo simples preenchimento de algo que ela mesma, jamais pensou em imaginar. Por que o eco dentro dela? Esse vazio que por vezes é preenchido pelas promessas de uma renovadora derrocada nacional, com um novo político, prometendo, jurando, tecendo uma teia demagógica para seus patrícios onde ela mesma é mosca viva, que tomba feliz sobre este tecido leve, mas rapidamente rompido pelos jornalistas destruidores dos sonhos da classe baixa, navalhas de escândalos tão afiadas quanto a faca do açougueiro que corta o coxão mole que ela cozinha com batatas e coloca em sua marmita. È este o reflexo de Rejane espelhado no negro céu como seus olhos. A dor da solidão corroendo seu âmago é refrigerada por uma carta, um telefonema clandestino saído da penitenciaria. O peso das lagrimas é mais leve com o sonho acordado. Ela com o mesmo vestido que aquela atriz usava na foto publicada na revista de fofocas da vida dos artistas, e o céu com o mesmo azul que o filme estrangeiro, onde todos os problemas sumiam sem o mínimo esforço, onde todas as casas eram sem infiltrações, os móveis os mais bonitos. Sim... Seu sonho era a realidade irreal, onde a grama era de verdade verde, como a grama dos estádios bem tratados para os mais bem pagos jogadores posarem com seus pés de fenômenos na corrida atroz pelo melhor lance que o alce a fama. E a quebra sutil e suave. Ele. Ainda moreno, ainda com braços fortes e as mãos grandes que tantas vezes a acariciou, as coxas ainda as mesmas onde afagou seu desejo. Sem camiseta como de hábito, peito nu a moda da malandragem, mas a calça é a mesma daquele homem da novela. A fronte de seu príncipe brilha como iluminado pelos céus, o gingado a seu encontro lhe amolece a pele e o volume cambaleante da braguilha a deixa rubra nas morenas bochechas. Ele quem trás a brisa que sacode seus cachos a moda do clipe da cantora norte americana que é fã; esta diante dela, o sorriso ainda é ladino e o cheiro de seu suor a aproxima para o beijo. Toca ensandecido o despertador gritando em seu ouvido que a realidade a chama, que a felicidade não esta na cama, que o amanhecer expulsa sem piedade a mentirosa noite consoladora. Ela sorri, de dentro do ônibus consegue enxergar com mais cores a vida, as pessoas que a oprime entre as outras agora são suas amigas, o bodum humano lhe invade as narinas como o perfume mais caro. Nada a tirará deste transe, é o dia dela, é o dia da felicidade, o encontro tão sonhado com o amado. Terça feira, faltou no emprego, e de pé sorrindo diante da penitenciaria espera por seu homem. Feliz, regenerado, sóbrio, com ideais que possam ser aceitos pela sociedade. Valdomiro se aproxima, e antes do beijo tão esperado, a queima roupa, atira com sua pistola de mau hálito: - Não veio de carro? O sonho se desintegra, dentro de Rejane reverbera um acido corrosivo chamado decepção, subindo e descendo em suas entranhas como monstro pronto a saltar para o mundo. Ela inicia o golfar, de dentro dela salta uma porção de fluido que sai impetuosamente em longos jatos de felicidade. È a infelicidade lhe presenteando com a verdade, afogando em seu vomito a irrealidade tão idealiza.

segunda-feira, janeiro 10, 2011

“MENINAS DA TELEMETRIA”

Relutei um pouco em como começar o Blog agora em 2011.

Cogitei criar crônicas pesadas em defesa da minha cidade amada - São Paulo e a corrupção avassaladora por políticos. Ou a descriminação dos menos favorecidos por parte da burguesia paulistana. Planejei também fazer um recorte cultural sobre as inúmeras figuras que encontro em meu percurso urbano, traçando meu pensamento entre o trabalho, faculdade, casa e divertimento. Mas abandonei tudo! O que é muito fácil para mim, basta apertar o backspace e praticamente minha mente é limpa de fatos, momentos, pessoas e situações.

Estou escrevendo um novo livro. Ele é forte, denso, apaixonante e sério como uma “amêndoa”; envolvente como seu óleo, onde o amor nada mais é do que um simples ato corriqueiro de pessoas que pela coincidência do destino, como estrelas no firmamento cósmico da vida, na terra se encontraram mãe e filho.

Por isso, resolvi seguir a linha natal e ano novo.

Escreverei pequenos contos inspirados no cotidiano, para assim fugir um pouco do trabalho denso, utilizando-me de criatividade descomprometida e irresponsável (se assim conseguir). Olhando as nojeiras humanas por um prisma onde somente as letras podem nos mostrar. Para isso contarei com o apoio das meninas da “TELEMETRIA”. Falaremos sobre elas em outro momento. Darão as nojeiras e eu darei o toque mestral das letras. Oh não, não pensei que me sinto por dizer-“e eu darei o toque mestral das letras”, tenho consciência de que sou um medíocre escritor, cuspindo a esmo as vísceras urbanas que me tangem a alma; e envergonhando os grandes mestres da literatura. Mas... Eu sou assim!

Obrigado

Que venham as “MENINAS DA TELEMETRIA”

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