segunda-feira, fevereiro 21, 2011

A TPM fictícia de Hellen.

Como bons brasileiros que somos não posso deixar este blog de fora de atitudes tão nacionais. O tal jeitinho. Lembra da coletânea das meninas da telemetria? Pois bem, faltava uma – a Hellen – que estava de férias, mas retornou e como fiel leitora de O Paulista solicitou de modo ameaçador que um conto-crônica fosse feito com sua palavra sugestiva. Eu mesmo sendo um escritor medíocre, ainda não sou louco. Claro que aceitei e lhe prometi que aqui publicaria um conto-crônica a ela. Pois afinal quem em sã consciência enfrente uma mulher, ainda mais de TPM e com um grampeador em uma mão e uma lapiseira em outra, quem teria coragem de tal ato de bravura?

Pois bem: A palavra proposta por Hellen é Sudorese.

Espero que gostem!

Não sei o que irei apresentar para vocês de agora em diante. Os dias estão menores e os afazeres maiores. Sabe que faculdade não é fácil, quero dizer, para alguns não é fácil, de letras então piorou, ler e ler, sem tempo para o ler, é f*. E o esperto aqui achou que tem cacife para escrever um livro. Pois é... Devo me achar um super herói, só pode. Levantar às seis da manhã, trabalhar em uma agencia de publicidade o dia todo, estudar logo em seguida e após este dia que não é nada light ter criatividade e mente para escrever e pesquisar para o livro, só sendo um super mesmo. Não sou um super, ou acho que sou, ou será que eu já fui? Será que vou ser?

Quem quiser propor algum desafio para este medíocre escritor afim de que eu escreva e publique aqui, estou a dispor. Pêra aí, alguém da telemetria havia proposto alguma coisa. Vou procurar saber. Mantenho-os atualizados. Risos e gargalhadas soluçantes, engraçado isso, né? MANTENHO-OS. (KKKKK) Só eu mesmo, mas fazer o que meu povo? Eu sou assim, assim que eu sou!

O homem sanduíche.

Não. Aderbal não era deficiente de olfato ou qualquer outra irregularidade em sua biologia. Era sim mais um cidadão da desigualdade silenciosa e aceita, aquele que não sabe o porquê de trabalhar incessantemente e não ter o mínimo da subsistência para dar aos cinco filhos.

Tinha fé de que um dia tudo iria melhorar, mas este dia não chegava. Acontecia de mais um dia de trabalho chegar, ter de sair da periferia de São Paulo, a cidade das oportunidades, para a região central permanecendo por longas horas debaixo do sol e da chuva como o homem sanduíche, anunciando, gritando aos pobres desempregados que ele era o condutor dos sonhos, do emprego tão buscado, e o dia de seu sonho de encontrar um emprego melhor, esse sim tão esperado, idealizado, almejado, não chegava.

Podia ser dia de enchente que Deus manda, ou de sol escaldante que seque as roupas no varal por míseros minutos, lá estava Aderbal de pé, em frente ao teatro municipal como o homem sanduíche. Nada o faria deixar de cumprir com seu trabalho.

O dia arrasta-se com lentidão, o sol deste dia lhe torra os miolos, lhe causa o bronzeado que não queria, e sorrateiramente o câncer de pele que não sabia que tinha. Este era seu companheiro, aquele que lhe produz náuseas, cansaço estremo que fermenta as piores dores que o corpo humano poderia suportar. Adorado deus sol, de uma trégua, escondendo-se atrás das nuvens e deixe-me livre de seus efeitos que reverberam em meu corpo. Poderia dizer isso o velho senhor, mas não. Sujeitava ao sol, a necessidade do trabalho, a luta pela sobrevivência como um fiel cão de guarda.

O dia de trabalho chegou ao seu fim. Hora de lutar pela volta para casa, a chuva dá o ar da graça, erguendo o vapor do asfalto em processo de esfriamento, encharcando o homem e desaparecendo como surgiu, rindo daqueles como Aderbal que secavam ao vapor que elevava-se do chão.

Briga para entrar no ônibus, puxam de cá, apertam de lá, e pendurado na porta de entrada vai o pobre trabalhador com a costela sufocada pelo cabo do guarda chuva da mocinha que trabalha como uma condenada para o escritório de contabilidade, mas crê com fiel certeza ser melhor que o homem sanduíche que a todos os dias via parado em frente ao teatro. Corrida para o metro, o corpo seco, só a barra da calça representava e dava sinais de que em algum momento o homem suado este em contado com a água.

O corpo grudando pedindo banho, os órgãos genitais quentes tal quais os ovos cozidos que saciaram sua fome na hora do almoço, os dedos dos pés imersos em água pastosa. Foi acotovelado ao entrar no trem, a costela ainda doía, e com a cotovelada o estomago reverberou lembrado que não havia comida dentro dele.

Um rapaz. Emo. Frequentador da parte nobre da cidade tampa o nariz, espirra, irrita-se com o cheiro do homem sanduíche. Olha-o de cima á baixo, sem dó nem piedade e diz em alto e bom som para o companheiro do lado, também Emo, também sem se preocupar dos sentimentos do homem sanduíche:

- Ai que fedo, né Beeee?

- Tô loca com isso, um perfuminho Chanel cairia bem, nesse cheiro de cebola de sovaco me dá náuseas.

- Tá dura, bicha? Isso ai só uma Avon!

Convulsionando em gargalhadas saíram sem olhar para a cara do velho. Segurou as lagrimas e a raiva, fingiu que nada ouviu, mas no caminho da estação até o ponto para pegar outro ônibus até chegar em casa e estar com os seus, verteu as lagrimas mais densas que teve um dia. Não havia como fugir, o nó na garganta era gigante, a vergonha, gritava em sua fronte e a impotência o fazia ser fraco.

O homem sanduíche foi acolhido pela mulher com o beijo de sempre, pelos abraços dos filhos, e sem a queixa do mal cheiro. O cheiro do trabalhador, do lutador, o cheiro do homem sanduíche.

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

Prêmio Literário Valdeck Almeida de Jesus 2010

Pela segunda vez terei um poema na coletânea Prêmio Literário Valdeck Almeida de Jesus, na versão 2010 com o poema "Prazerosa dor".

Assim que a edição estiver pronta informo. A imagem que ilustro o post é da coletânea de 2008, no qual também publiquei um poema - "Cortesã Homossexual". Abraços.

quarta-feira, fevereiro 16, 2011

O colecionador de “NÃO”.

Pessoas; entrego aos prazeres ou não de sua leitura, o meu colecionador. Trarei esta semana ainda um trecho do que estou escrevendo, saibam que são muitas noites sem sono e imensas leituras em coletivos, observando degustando meus personagens pelas ruas de Sampa. Este medíocre escritor é assim, assim que eu sou! Abraços.
Débora Galleta era uma senhora que perturbadoramente aproximava-se dos sessenta anos. Sua vida de artista no passado rendeu frutos gloriosos que vão das cifras á fama na orla artística brasileira. Mas, após a ação implacável do tempo sobre sua pele recolheu-se á humilde, porém milionária mansão no morro da Urca, e destinou-se a curtir sua busca por novos artistas, atrás de sua proteção. Senhora Galleta muitas das vezes sentia-se só em sua mansão, mesmo cercada por seus empregados. Quando este sentimento a dominava, mandava um deles à praia de Ipanema ou até mesmo viajar para São Paulo, precisamente na Av. Paulista, atrás destes jovens artistas em busca de uma madrinha, alavanca para a fama, aquela que compreende seus sonhos de sobrevivência na desigual classe artística brasileira, onde aquele que tem menos talento e mais padrinhos e madrinhas esta em voga, e o artista que luta por sua arte a base de suor e sangue esta a margem e com fome. Todavia, Daniel Marencas não foi resgatado por um dos serviçais desta nobre ou convidado, inesperadamente pela senhora; Daniel chegou a casa subindo por uma íngreme e longa trilha que corta a parte traseira do morro da Urca e conduz aos domínios da rica artista, sendo Jongo, o jardineiro quem notificou da inesperada chegada do jovem, entregando um livro de fotografias e falando num português aportuguesado: “Estais a vir um homem!” Jongo desapareceu pelos corredores da imensa casa em direção ao jardim, Senhora Galleta colocou-se sorrateiramente em uma as janelas de seus aposentos que vislumbravam com suas enormes vidraças o recém-chegado. Era um jovem faminto vestido numa calça jeans e uma camisa xadrez, trazendo a tiracolo uma pequena mochila e uma maquina fotográfica pendurada no pescoço, tudo o que possuía. Parado no terraço que lhe apresentava a paisagem carioca o paulista sacou sua maquina e cumpriu seu ritual de costume, fotografar com o prazer de o primeiro olhar: “Moço!” Retornou Jongo, antigo bailarino que fora transformado e acorrentado a um penhasco como jardineiro, apontou com o queixo negro para a extremidade do terraço, disse: “Siga-me!” Daniel o seguiu e fotografou, até a entrada de uma suíte ao lado da grande casa. Por não sabia quanto tempo, encontrara um lar. Logo que foi deixado pelo jardineiro, observou as fotos tiradas e dormiu. O cansaço da caminhada fazia-o esquecer a fome e o medo do “NÂO”. Daniel beirava os trinta anos, foi descoberto por um vocalista de uma banda com sucesso há dez anos trás. Quando está banda de música pop lançou seu segundo e último cd, Marencas lançou seu livro com fotografias que clicou dos shows e bastidores, o mesmo livro que o apresentou a Senhora Galleta, seu único trabalho, causou inesperada sensação na classe artística pela sensibilidade das imagens, e por um tempo restrito o jovem teve seu sustento. Mas, inesperadamente tudo parecia estar contra Daniel, sua boa reputação de fotógrafo fora ao chão ao mesmo tempo em que a banda se desfez e desapareceu no esquecimento do populismo. Não conseguia se enquadrar nos editais governamentais de incentivo a cultura, sempre achou o “NÃO” como respostas para sua coleção de fotos que intitulava “cotidiano brasileiro”. Pela manhã, antes de Daniel acordar, a senhora tratou de dar telefonemas para descobrir informações sobre o seu visitante. De todas as amigas por onde Daniel passou para angariar ajuda, teve como resposta o “NÃO”, as editoras onde a Galleta tinha contato lhe renderam as mesmas respostas, e que as fotos do jovem eram boas, porém não era o que estava em voga no momento. Concluiu que a coletânea de retratos do jovem eram meramente retratos dos refúgios onde jovens artistas sem paradeiros se escondem quando são rejeitados pelo amargo gosto da arte sem valor. “NÃOS”, que por instantes quase comoveram a sessentona. Imaginou os caminhos que Daniel trilhou, desconsiderando, sua subida a pé do morro pela colina até chegar a ela, fotografando as ruas pichadas de São Paulo, os moradores de rua, as paisagens cariocas, os bares da nova boêmia. Não havia nada de extraordinário em Daniel Marencas, saiu de casa aos dezoito anos, abandonando os pais que jamais tiveram instrução e sonhos, os irmãos que desejavam apenas um lar e comida, e da passada da infância, trazia apenas o sonho de ser fotógrafo como Araquém Alcântara, deslumbrou-se em viagens para registrar os lugares mais lúgubres da terra. Porém, jamais passou do eixo Rio-São Paulo. Daniel acordou, quando chegou ao terraço, recebeu uma xícara de café sem açúcar, que não saciou sua fome, e um leve adeus, antes mesmo de dizer a que veio: “Daniel, suas fotos são boas, porém não posso lhe ajudar”. “Mas a senhora ainda não as viu”. Tentou um malabarismo facial para esconder a decepção, segurou as lagrimas na goela. “Elas não estão em voga”. Daniel regressou pela mesma trilha carregando sua coleção de fotos e “NÃOS”, que crescia mais e mais.

segunda-feira, fevereiro 07, 2011

Chega o fim

Hoje termino esta pequena coletânea de Contos Crônica, com as palavras propostas pelas meninas da Telemetria. Envio meu eterno agradecimento á elas e aqueles que me concederam suas opiniões sobre eles.

Sei que os temas que abordei e opiniões aqui impressas não são lá o que queremos ler, e muitas das vezes queremos fingir que não existe. Tudo o que nos foge da nossa realidade e nos remete a outra realidade que impede de vermos uma sociedade melhor causa medo. Eu tive medo de escrever o que vejo; o que sinto, o que leio nos jornais e o que minha mente pensante leva-me a concluir como sentido de sociedade. E por isso escrevi, é a minha participação neste bolo que chamamos de vida social.

Escrevi claro por amor a minha cidade, eterna, etérea, charmosa e gostosa São Paulo. Por amor ao meu povo, escrevi por que “eu sou assim”, e como medíocre escritor que sou, sem destino certo, sem publico apreciativo, sem editora que me queira posso me propor a brincar com as palavras sem medo e com medo enfim.

Por enquanto me escondo na toca dos livros que chamo de lar. Tenho uma meta, terminar o livro que me tira o sono. Escrever não é fácil, mas é gostoso, é um alimento a alma e eterna ponte para o crescimento pessoal. Hoje escrevo algo diferente dos contos crônica que lêem a baixo, mas tão visceral em mim quanto eles. Fica aqui o meu abraço de medíocre escritor, por que eu me conheço, afinal – “Eu sou assim!” Eu rio de mim quando escrevo estas coisas, é engraçado né! Risos!

A espera

Para vocês a última e sétima palavra: Frieira. Proposta por Daniele. A mãe na espera do filho. Um chamado silencioso da madrugada que reverbera no peito daquela que pariu. Andou da cozinha para o quarto, não havia mais cômodos, não havia mais espaço para tanta espera. Dentro da casa ecoava a angustia do chinelo arrastado, e dentro dela o desespero do filho não mais voltar. Sentada em frente do barraco a beira do córrego poluído, sugando o ar frio da madrugada buscava a tranquilidade das estrelas, únicas que não faziam distinção de classe social.

Desta vez iria falar com o filho, já possuía a certeza, ele estava usando drogas. Já o haviam visto pelo centro da cidade com outros usuários perdidos na imensidão dos cachimbos entorpecentes e sedutores da fuga. Desta vez ajudaria o filho, daria a segunda vida a ele, faria dele o homem que sempre imaginou que seria e que deveria já ser em seus dezessete anos. Traçou planos, formas de convencê-lo, pensou em religiões, em clinicas e se viu sem alternativa. Como pensar em clinica de reabilitação se com o salário mínimo que recebia não dava nem para terminar de construir a casa que sonhou com o falecido marido. As religiões ela sabia que para contar com a ajuda delas deveria doar-se de corpo, alma e bolso. Ir a grupos de apoio comunitário, sem cogitação, muita distancia e dificuldade em fazer o filho comparecer aos encontros sem sua presença.

A mãe não encontra formas de como ajudar o filho. Amarrá-lo? Acorrentá-lo a cama? Como no caso que viu em um destes programas policiais populistas na TV, mas o desfecho sabia que não seria bom, nem para ela, tão pouco para o filho amado. Como a desesperada mãe que tomou tal atitude seria presa, o filho iria para um abrigo de menores e seria mais um usuário em seu consumo diário debaixo dos olhos, e com o consentimento do sistema político do estado de São Paulo.

O filho chegou. Tentou entrar na ponta do pé, sem fazer barulho, sem acordar a santa mãe. No escuro, vendo o ser que entrava em sua casa não acreditou que fosse o bebe que pariu. Era outro ser, e a fúria tomou conta de seu corpo. Queria levantar e dar-lhe a surra que merecia, queria que ele olhasse o mundo com os olhos da experiência que ela tinha. Acendeu a luz:

- Oi mãe! Respondeu de susto.

A voz do filho, instrumento que ela ajudou a produzir.

A ira partiu para longe dela, e voltou a mãe que acalenta, aquela que entende que é difícil o viver, que é surreal a desigualdade escancarada. Surgiu a mãe que cuida, aquela que protege mesmo sabendo que o filho esta errado:

- Tá com fome?

Pronunciou a pergunta com a maior suavidade e cautela, como se desejasse domar a fera mais feroz que poderia ver e que estava parada diante de si. Estendeu os braços e colheu em afago gostoso o abraço do filho amado. Acariciando os cabelos que não possuíam mais o cheiro doce de quando saiu de casa há três dias, perguntou novamente:

- Quer que a mãe te ajude em alguma coisa?

Os se olhos cruzaram, ela espera as lagrimas, suplica para a fuga do que o estava sugando, o matando aos poucos. Ela esperava que ele pedisse para ajudá-lo a se esconder do vicio, que o mostrasse o caminho reto, o caminho da vida digna e pobre, mas sem as sujeiras que a sociedade deixava por suas margens:

- Eu to com frieira, a senhora tem remédio aí!

A noite se tornou mais silenciosa, e um “sim”. Apenas um sim foi a resposta. O olhar perdeu-se dentro do rosto do filho e só enxergou o menino, a pequena, inocente e frágil criança.

As três barraqueiras do coletivo - Clínicas

Para vocês a palavra de número seis: Catarro - Proposta por Amábile. As três barraqueiras do coletivo - Clínicas
Eram Maria Fantoche, Maria Marionete e Maria Boneca de pano; três personagens no enorme teatro de bonecos que é a sociedade em mutação e crescente na maior cidade brasileira - São Paulo. Não eram somente provedoras dos risos da burguesia que se lambuzavam de baba por não conter a gargalhada em frente à TV, que ensandecidamente expõe e ridiculariza o dia-a-dia da periferia e faz uso dos sonhos de muitos inocentes para vender programas de entretenimento. Tão pouco apenas eram aqueles votos para promover a eleição do político que deseja uma ascensão na câmara de deputados e muitas das vezes no senado. Não, estas não se rendiam tão fácil. O ônibus Santo Eduardo que sai das Clínicas com destino ao bairro que vai a seu letreiro, pára em frente a praça Benedito Calixto. Sobem as Marias contagiando o ônibus com suas gargalhadas, suas risadas fortes e o bom humor inconfundível. No bairro onde moram as três enfermeiras, que lá todos lutam por uma melhor sobrevivência são populares por suas envolventes conversas no coletivo: - Amoroso, larga esse pé no acelerador que hoje eu quero chegar mais cedo em casa, hein! Disse Fantoche ao motorista que apenas retribuiu com um sorriso maroto. Depois de sentadas e acomodadas partiram para o bate-papo, claro que não possuíam o conforto de seus sofás comprados nas “Casas Bahia”, “Magazine Luiza” ou “Ponto Frio”, mesmo assim faziam daquele momento a terapia particular. Começaram falando sobre suas impressões da nova telenovela, tudo com muita descontração e sem importar-se de falar aos berros e brados para que suas opiniões fossem compartilhadas com todos os outros passageiros, alguns dormindo, outros lendo, uns que apenas olhavam pela janela do coletivo e perdia-se em seus sonhos alimentados pelas luzes da cidade: - Não menina, minha mãe dizia que novela antes era para mostrar a vida do pobre, mais agora você só vê a vida do rico passando nas novelas. Será que eles pensam que pobre não vivi, só rico? - Pior que é né Maria! E ainda os pobres que tem na novela são sempre o povo mau caráter querendo roubar a grana dos ricos, é enfermeira matando gente, mordomo roubando as casas ricas, e os coitadinhos, pobrezinhos dos ricaços só se estrepando com os pobres sem vergonha. Passa um casal de homossexuais na Av. Rebouças a caminho de uma balada Gay, Marionete fica de pé e grita a todos os pulmões pela janela: - Larga... Menino vai namorar uma “muié”! Todas riem descontroladas com a atitude de Marionete e com o susto tomado pelos rapazes apaixonados. As Marias beiravam os cinquenta anos, mas traziam em si uma jovialidade que o tempo, cruel e implacável não conseguiu retirar delas. Ridicularizavam os carros da ultima moda que passavam por suas janelas, riam dos transeuntes pelos bairros nobres por onde o coletivo as conduziam, não poupavam ninguém. Era a vingança das bonecas, riam-se com gosto, de espremer lagrimas nos olhos, de fazer dor no abdômen com a comicidade que elas mesmas produziam para amenizar seus sofrimentos de cada dia. Marionete iniciou uma trança em seus cabelos curtos. Como que se estivesse se vendo através de um espelho, e trançou-se com maestria, sem deixar o penteado torto ou disforme. Uma dança lenta da ninfa mais vaidosa que qualquer poeta poderia imaginar. Não se preocupava se não era magra, se seus seios não eram siliconados ou não mais durinhos como antes. Era linda ao seu modo, radiante ao seu tom. Terminou e aos berros as outras duas a louvaram pela beleza que ficou o penteado. Como uma Miss ao ganhar o concurso mundial levantou sua mão e abanou, até amoroso olhou pelo espelho com seu sorriso de gracejo. O ônibus parou, Fantoche puxou a todos os pulmões a mucosidade que possuía em seu peito, ergueu com ímpeto e mirou com os lábios firmes e bicudos como a mira de um revolver para um grupo de mulheres paradas em frente a uma casa noturna. Ela desejava matar, seus olhos brilhavam. Ela esperou amoroso dar o tranco de partida e atirou, com todas as forças, impulsionada pelos braços seguros na janela e a puxada para frente do tronco. O escarro voou como uma bala, caindo com a mira perfeita nos olhos de Dona Deisy, que estava maquiada perfumada e pronta para arrasar naquela noite: - Agora você aprende sua vaca cadela! O ônibus voltou a andar, os passageiros voltaram seus olhares para Fantoche e a mulher que grita de raiva na rua, tendo ainda a viscosidade verde grudada nos silícios postiços. A negra Maria justificou-se: - O que vocês estão olhando. Ela me despediu da casa dela por me acusar de ter roubado uma jóia. O que era uma mentira, porque foi o filho dela que é usuário de crack, aquele marginal rico quem pegou pra trocar por pedra. Contou com o apoio da maioria dos passageiros, e amoroso apenas sorriu pelo espelho em que visualizada as Marias, dando sua aprovação à vingança de Fantoche. Voltaram as gargalhadas desmedidas.

terça-feira, fevereiro 01, 2011

Rosa na sarjeta

Para vocês a quinta palavra: Pus. Proposta por Sarah. Rosa na sarjeta. Dona Josefa era viva ainda quando os filhos partiram para constituir suas famílias. Infinitas tardes ela gastou a olhar as fotos que retratavam um passado distante, onde os oito filhos homens eram ainda adolescentes sonhadores e as duas filhas, virgens donzelas a busca de um bom pretendente. A saudade é companheira da alegria e mãe da tristeza, esta era a divagação incerta na cabeça da velha idosa. O que deu de errado na criação dos filhos? Porque eles a abandonou? Para onde foram? Porque fogem do útero que os trouxe ao mundo? Respostas que ela jamais teria. Assim que o sol arreganhava-se nos primeiros raios da manhã pulava a senhora da cama e partia para a labuta doméstica e cuidar das rosas vermelhas de seu jardim. Não. Isso não era a realidade de Dona Josefa. Seria. Se ao contraio de uma retirante do interior de Minas Gerais que veio em busca de melhores condições de vida, naquela que para muitos era a terra dos sonhos, a realizadora de todos os ideais – São Paulo; fosse uma das damas da sociedade, que brilharam nos salões políticos na fase de ouro da cidade, mas não era! O marido conseguiu, sem esforço, trabalho como pedreiro, não recebia muito, não comprou com os anos de socar cimento a casa tão sonhada, mas ganhou do destino uma puxada em suas pernas, que o precipitou de cima de um andaime de cinco metros. Leitosa trapaça da vida e uma conspiração contra Josefa, o marido tornou-se invalido. Continuou a labuta como domestica e vendedora disso, vendedora daquilo. Sim, claro, como deixar de lado o eterno oficio das senhoras pobres da década de oitenta, ela também era costureira nas horas vagas. Os anos espancaram sua porta, e a vida não relutou em abrir-se para eles. Agora sim: Assim que o sol arreganhava-se nos primeiros raios da manhã, arrastava-se a senhora a caminho do hospital, ou do postinho mais próximo. Uma suplica constante por uma ajuda para os males da sua carne. Cinco da manhã, seis, nove, meio-dia, e ela ainda na espera. A perna envolvida em mais uma leitosa trapaça feita de pus, que a impedia de pensar em outro objetivo que não fosse à cura. Um médico envolveu de panos e a perna, outro lhe concedeu um remédio que não lhe traria melhora, este ultimo disse para ficar em repouso absoluto. Como se lhe pedisse em entrelinhas - deite-se em sua cama, ao lado de seu marido paraplégico, e aguarde a morte vir te recolher. Porem, Josefa queria mais, e partiu pela fé na busca da cura da carne através dos céus. Caminhar da periferia de São Paulo até o templo de Nossa Senhora Aparecida, este era o objetivo. Nada disse a ninguém, confiava em sua fé, e não se importava com o rastro deixado no caminho pelo pus. Ele estava lá tentando alertá-la que era o seu mensageiro particular do fim, seu hospedeiro e que não a abandonaria como fez as crias, que ficaria grudado nela até o último suspiro e seria o causador de sua rápida decomposição. Relutou em ouvi-lo, mesmo quando a viscosidade branca amarelada deixou de escorrer pela canela tracejando pelo calcanhar e pousar-se como uma poça no chão, e o sangue substituir seu lugar. O primeiro e único tombo de longe revelava que estava próxima do objetivo buscado. Todos foram unanimes em acreditar que foi um tombo fatal nos auto dos seus oitenta e cinco anos. Ninguém, nunca ninguém cogitou que onde foi achada, perto de sua casa, estava a caminho do templo da santa. Partiu Josefa no seio da sarjeta, como uma rosa abandonada por um namorado que deixou de amá-la, mas ainda intacta; envolta no sangue púrpuro que brilhava ao ser atingido pelos raios do sol e nas retinas atônitas da contemplação dos transeuntes, mas ainda sim uma rosa.
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