terça-feira, agosto 21, 2012

ILUMINATUS no Programa Escola da Família 2012.




Faço uma breve pausa na coletânea Raiz de Baobá para apresentar o texto “ILUMINATUS”. Nele verso sobre minha atuação no programa Escola da Família e a evolução de um dos alunos participantes – Lucas Bruno Bispo. Redação premiada na Mostra EF 2012.

Iluminatus
Robson Di Brito
Escola Jardim da Luz
Hoje, após quase dois anos no Programa Escola da Família compreendo que experiências são, na verdade, uma carreada de emoções e fatos que se orquestram um após o outro. Na ânsia de utilizar as habilidades adquiridas na faculdade, propus o projeto do Grupo de Poesia, que se tornou o brinco de pérola ao Programa Escola da Família da Escola Jardim da Luz.
Literalmente tateando no escuro, mas possuindo o desejo de fazer algo em troca da oportunidade da formação acadêmica, e efetivamente multiplicar saberes que acredito serem os verdadeiros formadores de caráter – tais como apreciação de um poema, a audição de uma música instrumental e outros que propiciam ao individuo olhar sua realidade com mais sensibilidade e reflexão, sendo assim, firmei o compromisso de tornar o conhecimento da poesia por partes dos alunos, algo superior à apenas um programa de bolsa de estudos. Nesta ideologia, tanto romântica, nasceu o Grupo Iluminatus, que a priori, compreendia a leitura e interpretação de textos poéticos.
Seus primeiros e parcos participantes foram alunos de ensino fundamental. Meninas e meninos fugindo das responsabilidades domésticas dos fins de semana, e buscando guarida na biblioteca da escola junto aos livros e a desinibição deste professor ainda em formação.  Destaco do grupo, aquele que se tornou o motivo da perpetuação do Iluminatus; moldura viva da realidade em transformação, e significativa testemunha de que, o projeto não é um simples passatempo de fim de semana, mas a oportunidade de se revelar um talento – Lucas Bruno Bispo.
Tímido, incomunicativo e monossilábico, assim chegou o Lucas para participar do grupo. Diante de minha extroversão que opunha sempre a seu olhar baixo, senti a distância formar um fosso entre nós no primeiro fim de semana. Não necessitei de pesquisas para saber que era muito tímido, de notas medianas e às vezes baixas. Morador da comunidade Dois Palitos que fica atrás da escola; buscava refúgio nos livros, e em seus cadernos de anotações inseria impressões sobre o mundo, seus medos, fantasias, tormentos e aflições de dentro de casa e do ambiente escolar – únicos locais de sua vida social.
Com o apoio constante da direção da escola iniciamos a maior ousadia já proposta pelo grupo, um passeio por mês. Passeios para bibliotecas públicas, além dos limites de Embu e Taboão da Serra – Centros Culturais, Parques, entre outros. Aliando esta estratégia ao estudo do grupo, iniciamos as produções de textos poéticos; ação que o destacou como mais maduro e sensível às letras. E certas vezes até espanto diante das profundidades de seus pensamentos. Conforme o demonstrado no trecho do poema “Mais que mãe”:
(...) As palavras não podem lhe descrever
Com essa pura beleza que sempre vi
Nada ultrapassa o seu grande amor
Tu és tudo; o mais que tudo
È uma divina deusa
È uma divina Mãe
As melhorias de suas notas tornaram-se o reflexo de que as atividades aos fins de semana estavam e ainda estão brotando em frutos. Seu ápice ocorreu quando nos preparamos para o Recital na Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura. Tornou-se o mais enérgico na busca de uma boa retórica e maturado em seus dezesseis anos. Abandonando o medo do público, o receio do erro, deixando a timidez diluir-se em suas palavras poéticas explodiu no palco do espaço cultural.
Na virada do ano, quando nossas mochilas de experiências pareciam completas, e o grupo desfez-se em uma silenciosa ruptura, ele permaneceu. Com sua pontualidade, sua eloquência em construção a pedir sempre mais nas aulas e a eterna persistência de encontrar as melhores palavras – características estas, que o eleva as infantis vidas dos grandes autores nacionais que um dia começaram do nada e:
No escuro, ainda se ouve o som dos pássaros, é sinal que a vida ainda existe lá fora. 
Trecho de seu conto “Pássaro de ferro”, apresentado para persuadir-me a continuar com o Grupo Iluminatus. Saber que ele virá aos sábados e domingos, move a mim e os outros universitários da Escola Jardim da Luz – guardiões que protegem o grupo e o motivam a sempre ir mais. È para que sua motivação não se desfaça, que os percalços de uma vida no limite da pobreza o torno mais forte no futuro, levando sua palavra de bravura estendendo a vida, que persisto com o Iluminatus – Iluminou Lucas, iluminará outros.

domingo, agosto 12, 2012

Tronco de mistérios



Ossaim em terras brasileiras, aparece em vários cultos afro com a denominação de Catendê, Águê, Ossãe, Ossonhe e Ossanha. Sendo bastante próximo do reino das plantas, que tem a sua história ligada às matas e florestas, semelhante Oxossi. Orixá masculino de origem Nagô (Yorùbá). Por causa do som final da palavra, é frequentemente confundido com uma figura feminina. Da cor verde, do contato mais íntimo e misterioso com a natureza. Não é um Orixá da civilização no sentido do desenvolvimento da agricultura, sendo como Oxossi, uma figura que encontra suas origens na pré-história.

Segundo o mito que explica suas origens, Ossaim era portador de todos os vegetais do mundo. Por conta do grande poder em mãos, os outros Orixás necessitavam de sua intervenção para resolver certos problemas. Isso só mudou no momento em que Iansã, a rainha dos ventos, provocou um forte tufão que dispersou os poderes das plantas entre todos os Orixás, de acordo com a esfera da atividade humana que controlassem. Algumas plantas, entretanto, continuaram sob o domínio de Ossaim, justamente as mais secretas, utilizadas tanto nos processos de cura, como em adivinhação.

Nas ocasiões ritualísticas, as ervas que representam Ossaim devem ser preferencialmente recolhidas do meio selvagem, onde não haja nenhum tipo de intervenção do homem, é empregado quando necessário o uso ritualístico das plantas para qualquer cerimônia litúrgica, como forma condutora da busca do equilíbrio energético, de contato do homem com a divindade.

Aos arquétipos de Ossaim, os filhos deste orixá são usualmente reconhecidos pela coerência e o equilíbrio entre a razão e as emoções. Ossaim é geralmente associado a outras figuras da mitologia indígena como a Caipora e o Saci-Pererê. No culto católico ele é equalizado a São Roque.

Este é Ossaim! Em minha pesquisa sobre os rituais, cultura, letras e mitologia africana, tenho-me deparado somente com o que de melhor ao homem e a natureza há. Por isso não teimo em me questionar – porque o brasileiro possui tanto preconceito em algo que desconhece, mas que faz parte de sua cultura?

quinta-feira, agosto 02, 2012

Poderoso tronco infante.



Ainda imbuído na cultura africana e afrobrasileira, buscando a concretude desta mítica religião, cercada de mistérios e sabores tão próximos a nós – brasileiros – e tão recriminada, atraco em uma lenda, e desta lendo vislumbro um Orixá.

Logun Edé na maioria dos mitos, surge como filho de Oxum e Oxossi. Algumas vezes apresentando-o uma representação dos Orixás Gêmeos, Ibeji. No sincretismo brasileiro é na figura do santo católico Expedito.

Simultaneamente representante da caça e pesca. É o herdeiro dos axés de seus pais que se fundem e se mesclam como mistério da criação. Um orixá que tem a graça, a meiguice e a faceirice de Oxum à alegria, e a expansão de Oxossi. Se Oxum lhe confere axés sobre a sexualidade, a maternidade, a pesca e a prosperidade, Oxossi lhe atribui os axés da fartura, da caça, da habilidade, do conhecimento.

Ao unir o feminino de Oxum ao masculino de Oxossi, o leva a ser representado como uma criança, um menino pequeno ou adolescente, formando mais uma trindade sagrada na História das religiões. Com Logun Edé, completa-se o triângulo Yorùbá: Pai, Mãe e Filho, que também se repete nas trilogias: católica (Pai, Mãe e Espírito Santo), egípcia (Ísis, Osíris e Hórus), hindu e tantas outras. Mas se, em várias tradições, ele é considerado um orixá masculino, em algumas é confundido com a homossexualidade ou a bissexualidade, o que ocorre quando se interpreta ao pé da letra o mito que afirma viver Logun Edé seis meses como homem e seis meses como mulher. Na verdade, a interpretação mais aceita seria que essa se trata de uma metáfora para falar dos axés herdados por ele de seus pais. 

Após ser abandonado e viver com Ogum, aprende com ele as artes da guerra e da metalurgia. É coroado por Iansã como o príncipe dos Orixás. É amigo íntimo de Yewá, seriam eles os Orixás que se complementam, considerados o par perfeito. 

Num mito raro, Logun Edé se perde no caminho entre as casas de Oxum e Oxossi, é encontrado pelo velho Omolu que o ampara e protege. Com Omolu, Logun Edé aprende a arte da cura e a feitiçaria. 

O seu primeiro nome, Logun, no Brasil se mesclou ao segundo, Edé, nome da cidade Yorùbá na qual o seu culto se fortaleceu, formando Logun Edé. Logun pode ser uma abreviatura de Ologun que, em Yorùbá, quer dizer feiticeiro. Existem templos para Logun Edé em Ilesa, seu lugar de origem, onde é citado como um corajoso e poderoso caçador, que tamanha coragem é relacionada à de um leopardo. De culto diferenciado e totalmente ligado ao culto a Oxum, é um Orixá de extremo bom gosto. Tem predileção ao dourado, é um Orixá muito vaidoso, considerado o mais elegante de todos os Orixás.

Costuma ser cultuado no Candomblé, mas não na Umbanda. Logun Edé não é um Orixá “metá-metá”, ou seja, um Orixá de dois sexos, embora divida o tempo com os pais, Logun Edé é um Orixá masculino. Ele é a beleza em pessoa, o encanto dos jovens, o namoro, o flerte. Rege a ingenuidade do jovem, a adolescência, a beleza adolescente. O seu encanto está no primeiro beijo, no primeiro abraço, no primeiro carinho. Está presente no brilho do olhar, no perfume das flores e numa paisagem singela, está encantado nos pequenos animais, como o coelho, o porquinho-da-índia e os pequenos pássaros, no mato baixo, nas matas pouco densas e principalmente nos rios, sua morada predileta. É também o deus da arte: de pintar, esculpir, escrever, dançar e cantar.

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