sexta-feira, outubro 26, 2012

Tenda Literária



Realizo aqui uma pequena pausa da coletânea Raiz de Baobá para apresentar o texto no qual discutiu com o grupo Tenda Literária dia 06/10. O Projeto Tenda Literária que já foi contemplado com o VAI 2009 / 2010 (Programa para a Valorização de Iniciativas Culturais), tem como objetivo transformar praças públicas em espaços culturais com oficinas e saraus voltados para a produção da Literatura Periférica nas diversas regiões da cidade de São Paulo. Hoje o projeto continua sem o incentivo público, mas com parceria de diversos coletivos culturais articulados pelo Tenda ao longo do projeto. Um papo gostoso e descontraído. Agradeço a organização, em especial a Professora Paula Gomes da E.E. Jd. da Luz,  pelo convite e incentivo de sair da sala de aula, sair do meu mundo literário e ganhar as ruas.
Quero mais!!!   

Literatura Marginal
Antes de entrarmos de fato no tocante da Literatura Marginal é necessário apresentar o conceito etimológico da palavra. Vem do Latim margo, que significa “margem, beira”. A palavra descreve aqueles que transitam pelos arredores do que se aceita legalmente. No Dicionário da Academia Brasileira de Letras nos diz que marginal além do popular: Pessoa delinquente  bandido, meliante, é também, aquele que vive à margem do seu meio social, das convenções ou das leis vigentes, marginalizado. Claro que não podemos nos deixar cair no senso comum que é aquele que transgride de forma agressiva seja na literatura ou em qualquer meio.

Um fato que não podemos deixar de citar também, é que, a literatura Marginal popularizou-se no século XX, mas no século XIX temos o surgimento de uma literatura à margem no exemplo de Camilo Castelo Branco com sua novela de folhetim Amor de Perdição. Esse que foi o ponta pé inicial para o gênero que conhecemos hoje como romance. Camilo preso; escreve um romance com fatos reais em que revela a degradação da sociedade em vários gêneros, tendo de fundo um romance água com açúcar. Veja que aqui, cabe ao pai do romance, um título de marginal. Preso por ser amante de Ana Augusta Plácido.

Para titulo acadêmico temos Literatura marginal como o estilo literário que surgiu na década de 70 e vem crescendo ao longo dos anos. Mas não podemos excluir Carolina de Jesus, com sua obra Quarto de Desejo, traduzido para mais de treze línguas. No livro, Maria de Jesus, uma favelada, escreve em seu diário o seu dia a dia nas comunidades pobres da cidade de São Paulo entre o ano de 1955 e 1960. E ela Carolina uma ex-catadora de papel, com pouca escolaridade, favelada, mulher, negra e pobre, fez de suas obras um meio de denúncia sociopolítica. Há quem afirme que o conjunto da cultura brasileira atualmente exige novos modelos de análise, capazes de estimular novas leituras e interpretações, uma vez que a tendência à exacerbação da violência e da crueldade torna-se cada vez mais forte no meio social. Isto é a descrição daqueles que não tem voz, os excluídos. E era isto que Carolina fazia. Era a voz da exclusão. Descoberta pelo jornalista Audálio Dantas ao escrever uma matéria sobre a expansão da favela do Canindé. Segundo estudos da dialética discursiva e da Literatura contemporânea é a primeira a lançar o que conhecemos como literatura marginal.

Houve também Plínio Marcos. Filho de uma família modesta, mas moradores da periferia de Santos. Por influência da escritora e jornalista Pagu, outra marginalizada, começou a se envolver com teatro amador em Santos. Impressionado pelo caso verídico de um jovem presidiário, escreveu sua primeira peça teatral, Barrela. Por sua linguagem crua, ela permaneceria proibida durante 21 anos após a primeira apresentação.

Podemos observara que no tocante de Literatura Marginal ganhou popularidade, e esta paliativamente ganhando destaque da mídia. Cidade de Deus, de Paulo Lins (1997) e Estação Carandiru, de Dráuzio Varella (1999), também merecem aqui destaque, mas não são patronos do gênero como muitos afirmam. Elucido que obras muito diferente entre si como as de Luiz Gama e de Solano Trindade precisam ser lembradas, e que oferecem oportunidades para a problematização de questões como auto-representação, da escrita marginal, afirmação identitária e inserção nos circuitos letrados canônicos e mercadológicos.

Mas as popularidades dos trabalhos de Dráuzio Varella e Paulo Lins serviram e ainda é um nervo sensível na expressão cultural brasileira, que vê inquietações sobre a representação da violência, procurando avaliar seu sentido e função social econômica.

O estilo apresenta características próprias, como o abusando da linguagem coloquial, das gírias e desprendendo-se da linguagem institucionalizada. Um fator que aproxima seus leitores e facilita o ganho de adeptos, é que muitos falam e escrevem suas práticas sociais. Características que podemos destacar como linhas de força de uma questão no mínimo complexa, envolvendo aspectos econômicos, sociais e culturais, que estão na base do que nesse caso se apresenta como linguagem. A forma de se apresentar esta literatura, que ao mesmo tempo é de uma crueza inigualável, mas não menos poética.

Nos últimos tempos a mídia abriu espaço para que a periferia mostrasse o seu estilo de vida, suas músicas, a forma como fala, age e se comporta, ou seja, possibilitou a esse grupo social a oportunidade de mostrar seus valores. Estamos presenciando uma nova era onde os dominadores estão de olhos nos dominados, isso é bom para que velhos paradigmas sejam quebrados. Infelizmente a mídia ainda não descobriu a produção literária da periferia, pois ainda acredita que esta não possui literatura própria, porém, já é uma realidade que este grupo social produz literatura e de boa qualidade, com suas características de linguagem próprias, diferentes (em relação à tradicionalmente produzida) e com uma rica demonstração da cultura que está inserida.

Aconteceu nos anos 90 o movimento de “escritores marginais”, com a publicação da revista Caros Amigos/Literatura Marginal, porém, esta geração relacionava seus textos ao cotidiano das camadas populares e aos problemas sociais da realidade periférica. Seus autores são de classe baixa e vivem em comunidades carentes, na sua maioria não possuíam o ensino fundamental completo. Seus textos apresentam características próprias, abusando da linguagem coloquial, das gírias e desprendendo-se da linguagem institucionalizada. Dentro desse movimento, o livro Capão Pecado, tem grande relevância, sendo considerado, inclusive um “best-seller”. Este romance do escritor Ferréz pseudônimo de Reginaldo Ferreira da Silva retrata o cotidiano do bairro do Capão Redondo. O autor faz uso da linguagem coloquial carregando os textos de gírias e xingamentos. O próprio Ferréz se intitula escritor marginal e justificou em uma entrevista a revista Caros amigos:

“E temos muito a proteger e a mostrar, temos nosso próprio vocabulário que é muito precioso, principalmente num país colonizado até os dias de hoje, onde a maioria não tem representatividade cultural e social”.

Em se tratando de Literatura propriamente dita, como viés acadêmico foi a partir da publicação do romance Cidade de Deus, que ganhou um novo impulso no cenário editorial e visibilidade nas esferas letradas, inclusive no meio universitário, sobretudo tudo na observação dos sujeitos da escrita, que se dedicam em seus escritos a produzir representações literárias da experiência dessas próprias comunidades.

Ou seja, pensar, ler, estudar Literatura Marginal é ter nas mãos um movimento de reflexão social na qual a literatura é vista como um linguagem ao infinito, um espaço exterior, efeitos de sentido inapreensíveis. Se literatura é linguagem ao infinito, como sugere Foucault, infinitamente multiplicada em seu duplo e em sua reduplicação, encontra-se distante do real, mas presente em tantas realidades.          
 
Recomendo algumas obras da Literatura Marginal, na qual podemos observar o tocante das reações da periferia diante dos contextos atuais e da expansão da cultura letrada periférica.

Lista dividida por autor:

Ferréz:
a) Literatura Marginal
b) Capão Pecado
c) Cronista de um Tempo Ruim
d) Deus foi almoçar
e) Amanhecer Esmeralda
f) O pote mágico

Carolina Maria de Jesus:
a) Quarto de despejo
b) Antologia Pessoal

Sérgio Vaz:
a) Literatura, pão e poesia
b) Colecionador de Pedras
c) Agarrando o Sonho

Marcelino Freire:
a) Contos Negreiros
b) Memórias de um sobrevivente
c) Angu de Sangue
d) Amar é crime
e) Os cem menores contos brasileiros do século

Luiz Alberto Mendes:
a) Cela Forte
b) Memórias de um sobrevivente
c) As cegas
d) Vencendo o pânico sem drogas

Cidinha da Silva:
a) Os Nove pentes D' África
b) Oh, Margem! Reinventa os rios!

Catia Cernov:
a) Amazônia em chamas;
b) Condomínios.

Marcos Teles:
a) Sob o céu azul.

Recomendo e indico o blog Colecionador de Pedras e o Sarau da Cooperifa ambos dirigidos por Sérgio Vaz que tem feito um brilhante trabalho a cerca da Literatura Marginal.
Obrigado!!!

quarta-feira, outubro 17, 2012

Tronco de fogo



Nesta continuação para o conhecimento das Yabas e produção de um poema, que se aproxime do encanto que perpetuam seus segredos, vejo Iansã de baixo, comandando raios e trovões do alto, e compartilho com vocês. Conto com a ajuda dos Blogues Candomblé: O Mundo dos Orixás, Umbanda sem mistérios e Casa de Iemanjá Iassoba.
   
Iansã é uma guerreira por vocação, sabe ir à luta e defender o que é seu, a batalha do dia a dia é a sua felicidade. Ela sabe conquistar, seja no fervor das guerras, seja na arte do amor. Mostra o seu amor e a sua alegria contagiantes na mesma proporção que exterioriza a sua raiva, o seu ódio. É a mulher que acorda de manhã, beija os filhos e sai em busca do sustento. O maior e mais importante rio da Nigéria chama-se Níger é a morada da mulher mais poderosa da África negra, a mãe dos nove orum, dos nove filhos, do rio de nove braços, a mãe dos nove, Ìyá Mésàn, Iansã.

Algumas passagens da história de Iansã a relaciona com antigos cultos africanos ligados à fecundidade, e é por isso que a menção aos chifres de novilho ou búfalo, símbolos de virilidade, surgem sempre nas suas histórias. Iansã é a única que pode segurar os chifres de um búfalo, pois foi capaz de transforma-se em búfalo e tornar-se mulher da guerra e da caça.

Apesar de dominar o vento, Oyá originou-se na água, assim como as outras yabas, que possuem o poder da procriação e da fertilidade. Recebeu de Olorun, a missão de transformar e renovar a natureza através do vento, que sabe manipular. O vento nem sempre é tão forte, mas, algumas vezes, forma-se uma tormenta, que provoca muita destruição e mudanças por onde passa, havendo uma reciclagem natural. Normalmente, sopra a brisa, que, com sua doçura, espalha a criação, fazendo voar as sementes, que irão germinar na terra e fazer brotar uma nova vida. Além disso, esse vento manso também é responsável pelo processo de evaporação de todas as águas da terra, atuando junto aos rios e mares. Esse fenômeno é vital para a renovação dos recursos naturais, que, ao provocar as chuvas, fertilizam a terra.

Iansã percorreu vários reinos, foi paixão de Ogum, Oxaguian, Exu, Oxossi e Logun-Edé. Em Ifé, terra de Ogum, foi a grande paixão do guerreiro. Aprendeu com ele e ganhou o direito do manuseio da espada. Em Oxogbô, terra de Oxaguian, aprendeu e recebeu o direito de usar o escudo. Deparou-se com Exu nas estradas, com ele se relacionou e aprendeu os mistérios do fogo e da magia. No reino de Oxossi, seduziu o deus da caça, aprendendo a caçar, tirar a pele do búfalo e se transformar naquele animal (com a ajuda da magia aprendida com Exu).

Seduziu o jovem Logun-Edé e com ele aprendeu a pescar. Iansã partiu, então, para o reino de Obaluaiê, pois queria descobrir seus mistérios e até mesmo conhecer seu rosto, mas nada conseguiu pela sedução. Porém, Obaluaiê resolveu ensinar-lhe a tratar dos mortos. De início, Iansã relutou, mas seu desejo de conhecimento foi mais forte e aprendeu a conviver com os Eguns e controlá-los. Partiu, então, para Oyó, reino de Xangô, e lá acreditava que teria o mais vaidoso dos reis, e aprenderia a viver ricamente. Mas, ao chegar ao reino do deus do trovão, Iansã aprendeu muito mais, aprendeu a amar verdadeiramente e com uma paixão violenta, pois Xangô dividiu com ela os poderes do raio e deu a ela o seu coração.

Eparre Iansã, eparre Bela Oyá, apresento: RAIZ DE BAOBÁ: Iansã  

terça-feira, outubro 09, 2012

Tronco destemido



Para a coletânea Raiz de Baobá, trago o brilho feminino, conto com os Blogues Centro Espiritual de Umbanda – Esperança e Juntos no Candomblé para melhor compreender este Orixá. Lembremos que esta introdução é para simples conhecimento, uma sucinta pincelada na magnitude que há nas lendas, mitos a cerca destes deuses.

Obá, Orixá africano do Rio Obá ou rio Níger, uma das esposas de Xangô. Segundo suas lendas, Obá lutou contra inúmeros Orixás, derrotando vários deles. Obá derrotou Exú, Oxumarê, Omolú e Orunmilá, tornou-se temida por todos os deuses. Tendo sido derrotada apenas por Ogum e tornando assim sua esposa, e ao seu lado quando este foi enfrentar Xangô em batalha encantou-se pelo rei do trovão e abandonou a luta se entregando a Xangô como mulher, vivendo uma grande paixão. O que Xangô representa para os mortos masculinos, Obá representa para as mulheres mortas. Ela assim como Xangô é a representante suprema da ancestralidade feminina.
Este Orixá é que aquieta e intensifica o racional dos seres, já que seu campo preferencial é o esgotamento dos conhecimentos desvirtuados. A orixá Obá é uma divindade regida pelos elementos terra vegetal. Junto com Oxóssi forma a terceira linha de Umbanda Sagrada, que rege sobre o Conhecimento. Ele assentado no polo positivo e irradiante desta linha, já Obá em seu polo negativo ou cósmico, que é absorvente. Seu elemento original é a terra, pois atua nos seres através do terceiro sentido da vida, que desenvolve o raciocínio e a nossa capacidade de assimilação mental e realidade visível, ou somente perceptível, que influência nossa vida e evolução contínua.

Um dia Obá não se conteve e perguntou a Oxum qual o segredo de sua sedução. Oxum, que vivia com a cabeça enrolada em turbantes maravilhosos, disse que havia cortado a própria orelha esquerda e colocado no Amalá (comida à base de quiabo) de Xangô que, ao come-lo, por ela se perdera de paixão para sempre. Obá então cortou a própria orelha e a colocou no Amalá. Ao ver Obá com um ferimento no lugar da orelha, Xangô quis saber e Obá contou. Neste momento Oxum tirou seu turbante e, mostrando as duas orelhas intactas. Xangô, zangado com a insensatez de Obá e enjoado por ver sua orelha na comida, expulsou-a de seu palácio e Obá tanto chorou e teve raiva que se transformou num rio revoltoso. Na África, no lugar onde se encontram os rios Obá e Oxum o estouro das águas é extremamente violento.
Obá no sincretismo é identificada na Santa Católica Joana d’Arc.

quarta-feira, outubro 03, 2012

Tronco justo de trovoada


 
Ao propor dar este passeio por entre o panteão dos deuses africanos, não vasculhei atrás de qualquer afirmação, de etnia alguma – tão pouco representar um conhecimento, no qual a mim esta sempre em construção – Mas no tocante de minha pesquisa acadêmica deparei com preconceitos, e nivelamentos étnicos, em locais de estudiosos que não deveria acontecer isso, tão pouco em terra miscigenada como as terras Brasil. Mas vislumbro Xangô à continuação desta coletânea. Senhor da Justiça, com “J” maiúsculo, que não se importa com a cor da pele, nem a etnia/raça, importa-se em ser verdadeiro e justo. Para este conhecimento conto com a parceria dos blogues: Xangô e Candomblé – O mundo dos Orixás.
 


Xangô, Shango ou Sango, Orixá de origem Yorubá. Seu mito nos revela que foi Rei da cidade de Oyo de (Nigéria, África), onde foi o quarto Rei lendário, tornado Orixá de caráter violento e vingativo, cuja manifestação são o fogo, o Sol, os Raios, Tempestades e Trovões. Teve várias esposas, e as mais conhecidas: Oyá, Oxum e Obá. Xangô é viril e justiceiro; castiga os mentirosos, os ladrões e os malfeitores. Sua ferramenta é o Oxê, machado de dois gumes, Orixá do Poder, em si esta a  representação máxima do poder de Olorun.

Enquanto Oxossi é considerado o Rei da nação de ketu, Xangô é considerado o rei de todo o povo Yorubá. Quando rei unificou todo um povo, criou o culto de Egungun, outros Orixás possuem relação com os Egunguns, mas ele é o único que exerce poder sobre os mortos. Xangô é a roupa da morte, Axó Iku, por este motivo não deve faltar nos Egbòs de Ikù e Egun, o vermelho que lhe pertence. Ao se manifestar nos Candomblés, não deve faltar em sua vestimenta uma espécie de saiote, com cores variadas e fortes, que representam as vestes dos Eguns.

Xangô era forte, valente, destemido, justo, temido, e ao mesmo tempo adorado. Comportou-se em algumas vezes como tirano, devido a sua ânsia de poder, chegando até mesmo a destronar seu próprio irmão, para satisfazer seu desejo. Também tem uma ligação muito forte com as árvores e a natureza, vindo daí os objetos que ele mais aprecia, o pilão e a gamela; o pilão de Xangô deve ter duas bocas, que representam a livre passagem entre os mundos, sendo Xangô um ancestral (Egungun). Da natureza, retirou profundos conhecimentos e poderes, que somente eram usados quando necessário. Tem também uma forte ligação com Oxumaré, considerado por ele como seu fiel escudeiro.

Espero que apreciem RAIZ DE BAOBÁ: Xangô
 
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