segunda-feira, outubro 19, 2015

DISCURSO - A centelha da coragem.



Discurso para o Canjerê promovido pelo Casarão das Artes de Belo Horizonte na cidade histórica de Diamantina – “Canjerê Chica da Silva”. 
Festival de Arte Negra 2015.

A centelha da coragem

Existe algo que fica além do plano das ideias. Algo que nem mesmo Platão poderia imaginar. Nenhum sentido da razão será páreo para este algo. Um monstro terrível que nos consome, devora, lambe sem piedade. E sorri. Um sorriso tão doce que envolve, mas dilacera. E o quanto mais longe ele está, mais babamos. De bocas abertas como um sedento viajante do deserto. Este algo são os contos. Lendas. Mitos. E dentro deles mora o diamante mais precioso que a terra Brasil já viu. Que milho verde pariu. Tijuco transformou em mulher. E diamantina em uma pedra preciosa enigmática. Essa é Chica da Silva.
Mas mitos, lendas e contos são alimentados, difundidos e espalhados por corajosos. E nós somos a centelha desta coragem.  Hoje, estes mitos ganham veracidade em propagar-se não na costumeira forma do preconceito. Da dilacerante mentira que joga Chica em um turbilhão de inverdades afim de novamente, subjugá-la e ao povo negro.
Despimos a negra Chica dos diamantes das Gerais, e a olhamos nos olhos da história. De forma corajosa como tem feito o Canjerê em sua trajetória. Em sua resistência abraçando gentes e mitos, na busca por respeito. Por uma dignidade, por um reconhecimento e uma identidade tão nossa. Ser negro, ser mestiço – ser brasileiro.
Como uma voz que ecoa de dentro do túnel do passado, mas não vestida das lamúrias opressoras, e sim da coragem no tempo presente. Armando-se da ciência e da cultura popular. Revelando aos olhos inocentes do preconceito – e porque não do racismo – que o povo negro ainda existe, e esta mais forte.
Obrigado ao Casarão das Artes por proporcionar este momento à cidade de Diamantina. Obrigado, por ser um norte para pesquisadoras e pesquisadores da temática Afro e Afro-brasileira. Hoje estamos vivenciando um encontro, que une presente e outrora. Aqui neste espaço, não sagrado. E algumas vezes, entre janelas cerradas por rendadas cortinas, vilipendiado por uma mesquinha ideologia colonialista que persiste em nos perseguir. Unem-se dois “C’s”. Chica e Canjerê. Acendendo a chama que ecoa por todo o Brasil, e carrega consigo o cheiro agridoce do pão de queijo, moldado por negras mãos da coragem.
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