segunda-feira, novembro 23, 2015

DISCURSO - Ao saltar dos olhos: Maracatu




Discurso em apoio ao Grupo Maracatu Estrela da Serra de Diamantina 
                                                                                                                de Minas Gerais.

Seguramente são abomináveis e de todo rejeitáveis os atentados sofridos pelo Grupo Maracatu Estrela da Serra, da cidade de Diamantina em Minas Gerais. Tais fatos nefastos não caem do céu ou emergem do inferno. Possuem uma pré-história de raiva, humilhação a que a cultura Negra tem sofrido por longos séculos.

Mas o mais tangível de tal ato de preconceito, deliberativamente declarado; é o medo. O medo da resistência, da força e da perpetuidade que a cultura negra, mesmo diante da opressão, tem se apresentado.

Aqui, no mercado velho. Ponto alto do turismo de Diamantina. Onde no tenebroso passado eram vendidas mulheres, homens e crianças. Nossos ancestrais. Mercadorias do ódio. Mas, no hoje, em ensaios que não ultrapassam pequenas horas, congregam-se homens, mulheres e crianças. Produtos do amor. A energia vital da existência humana, o pilão fundamental da comunidade e resistência NEGRA – a comunhão.

Sim, é o Maracatu Estrela da Serra de Diamantina é um grupo de resistência. E o incomodo que acomete aqueles que não compreendem a importância do Maracatu como patrimônio cultural, humano, e musical brasileiro – é o gostoso som dos tambores, dos cantos, o remelexo do corpo. Estes que a todo instante relembram ao saltar dos olhos do que verdadeiramente se forma o povo brasileiro.

Senhores que clamam pela ordem pública, que arremessam rojões, e invocam o poder opressor do Estado contra esta manifestação cultural pacifica:

Porque a representação da cultura Afro-brasileira os agride tanto? Porque o som, as danças, a alegria e felicidade – mesmo diante da medonha dor que proporcionam – causam tanta repulsa? Porque do preconceito?

Na enorme ciranda da democracia também queremos dançar. Também movimentamos o capital (se somente o dinheiro lhes importa). Também somos produto diante do mercado do Turismo. Entretanto, acima dele somos negras, negros, índios e mestiços demonstrando que não importa o quando nossa cultura lhes ofende. 
Seres eternamente Maracatu Estrela da Serra.

segunda-feira, novembro 09, 2015

DISCURSO - Uma força de guerra


Discurso proferido no encerramento do CONGEafro, promovido pela UFPI.
II Congresso sobre Gênero, Educação e Afrodescendência – roda de GRIÔ.



Existem em nós brasileiros, poços de medos. Que se abrem em paralelos como um abismo profundo e nos impede de ver a verdade. Mas raramente surgem de dentro deles, vozes. Ferozes vozes, que ecoam como um grito guerreiro. Como o sonoro, firme e dominador Ilá de um orixá em guerra. Como o berro de um pajé em luta. É o sonar da igualdade. É o ecoar da cor tinindo no espaço. Como uma gigantesca bolha pronta a explodir. Esses medos são as corres: Terracota e Preta. Que se espalharam pela terra de Vera Cruz, tingindo com graça e nova raça homens e mulheres. Moldando corpos ao quente de seu rebolado.

A força de seu sangue NEGRO, da sua seiva de vida ÍNDIO. Produziram o que de mais belo a terra viu. A miscigenação. E esfregou na cara do ódio imposto, o quanto são fortes e resistentes. Mas agora chegou o tempo. O tempo de destruir com o laço do preconceito, que não nos pertence. Todos os matizes de cores humanas estão na eterna roda da vida.  Somos uma única família. Uma única aldeia. Somos a globalização. Somos brasileiros.

Não deixemos que o passado opressor e desigual permaneça lambuzando de sujeita corrupta a nossa força.

Levantem-se mulheres. A terra foi criada por um ventre. Olocum – ayabá suprema das águas. Sem ela nada se faria. Fomos paridos e não surgidos do vazio de um buraco negro. Fomos feitos pelo mais suave toque, o mais firme envolver. Fomos feitos pela água do útero. E não há nada mais poderoso do que deter o poder de compartilhar. Sangue e carne. Esse poder é exclusivamente de vocês mulheres.

Sou grato, por em algum momento alguém pensou na Lei 10.639. Sou mais grato porque alguém idealizou ver negros, índios e mestiços dentro da Universidade. E é graças a estas pessoas, que encararam a horrenda sombra do passado, que estou aqui. Mas, não se enganem. Não é fácil! As amarras opressoras estão sentadas confortavelmente sobre as cadeiras acadêmicas. Impedindo com uma mão de palmatória silenciosa. Escolhendo, pontualmente, o que deve ou não ser dito. O que precisa ou não ser aprofundado pelas ideias. E quase sempre não corroboram ao pensar a negritude.

Mas eis que surgimos. Em momentos como este, para levantar nossas vozes do fundo da razão. Misturando ciência e gente na construção do pensar. Parabéns aos organizadores do evento. Sinto-me mais do que honrado, me sinto agraciado e tocado pelas fortes e potentes mãos de um orixá.
Obrigado Congeafro. 
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