segunda-feira, dezembro 19, 2016

Um maravilhoso encontro com as DEUSAS


Discurso proferido no lançamento da Antologia: “Mais do que palavras”, no espaço Scortecci em 10/Dez/2016.

   Sempre pensei que em momentos como este deveria ser o menos formal possível. Já que aqui terão acesso a apenas uma parte do autor, que ele seja de sorrisos e alegre confraria. Isto porque, terão no conto “Caos de Sandra”, que publico com o apoio do Grupo Editorial Scortecci, apenas uma parte de mim.  Assim, sinto-me obrigado a me apresentar.
   Entendam – eu acredito em deusas. E não sou o único:
   Camões também o era. O sensor da inquisição, munido de uma grande desconfiança, proferiu antes da liberação à publicação de Lusíadas a seguinte sentença: Fica, porém, sempre salva a verdade de nossa santa fé, pois que todos os deuses dos gentios são demônios. O sensor falava das ninfas, das deusas gregas que Camões empresta da mitologia ocidental para compor a sua epopeia.
   Freud também tinha convicção nas deusas, ao seu modo psicanalítico, mas tinha. Escreveu que o amor do filho é tão grande pela deusa que o fez – a sua mãe – ao ponto de desejar a morte (do pai) para que a deusa seja somente dele. Deste conflito emergido da mitologia tebana, Freud cunhou o termo mais aclamado pela psicanálise: Conflito de Édipo.
   Eu creio, sem medo, que a natureza – é Deusa! Múltiplas e infindas. Também, a água é múltipla, existem as marés dos rios, as quedas d’águas em cachoeira, a revigorante água do mar, as gélidas águas das grutas. Os indígenas denominam de Uiara, a deusa dos rios. Os afrodescendentes de cultura religiosa chamam de Iemanjá: a rainha do mar e Oxum: a deusa das águas doces.
   E eu vou mais além... Para mim as deusas, também são vocês – mulheres! Que reinam no dia-a-dia do seu existir. Que guerreiam rompendo a margem preconceituosa do poder da testosterona. Há em cada uma de vocês, deusas. Por isso, o conto que publico hoje, é sobre a mulher. E o que de mais sublime há em vocês. A função biológica do aviso da vida. A cor do seu existir.  Aquilo que você ama e odeia. O tabu. O cochichado. O que bota medo quando atrasado. O que te faz suspense: A menstruação.
   Puxei de dentro de mim a feminilidade. E imaginei que surgiria magicamente uma linda mulher na minha frente – desculpe a jocosidade, mas de preferência nua e etérea – mas a deusa que me soprou o conto foi a Literatura.
   Entendo que, todo o ser tem uma capa, quando não da ignorância, da inteligência – que pode ser reeditada com a produção do conhecimento, em qualquer momento. Mas o interior, esse é composto de folhas em branco, prontas para serem escritas. Desde a primeira folha até a última, a vida pede literatura. Por isso ela é uma deusa. E eu rendo louvores para ela.
   No lançamento de “Mais do que palavras” teve-se um considerado número de autores, que muito provavelmente invocaram suas deusas. E tiveram a coragem, junto comigo, de expô-las ao público. Eu, Robson Di Brito, agradeço a cada autor que participou da Antologia: “Mais do que palavras”. Obrigado por partilharem conosco mais do que palavras.

E a vocês, magníficos leitores, eu desejo um MARAVILHOSO encontro com nossas deusas.

Obrigado.


quinta-feira, dezembro 15, 2016

TRANSE: Um diálogo com a ilusão


Texto sobre exposição/performance Transe de Rafael Cabral.

O estudo do fenômeno humano clássico atribui que, transe é o estado de alteração do consciente.  O psiquiatra Sigmund Freud escreve que o transe é uma pulsão criativa da mente humana. A História descobriu que no Egito faraônico o sacerdote comunicava-se com os deuses por meio do transe, assim de maneira semelhante na Grécia as pitonisas realizam suas consultas ao deus Apolo. Já nos dias contemporâneos o transe tornou-se tabu e motivos de desconfiança.
Mas o porão do Museu do Diamante na cidade de Diamantina (IBRAM), recebeu no dia 24 de Novembro de 2016 a exposição/performance “TRANSE”. Uma leitura proporcionada pelo artista plástico Rafael Cabral. Nascido em Timoteo, região do Vale do Aço – Minas Gerais, mas radicado na cidade histórica de Diamantina. Como toda sua arte contemporânea, Rafael Cabral dialoga com a ilusão. Este é o ponto central de “TRANSE”.
O artista se permitiu estar 10 (dez) horas ininterruptas produzindo sua Obra. Os visitantes do museu que estiveram no local puderam acompanhar este estado de transe. E no ápice de sua ação o performance ao beber a tinta lança-se a sua entrega à arte, de maneira a impressionar o público com a junção de Obra e Corpo.
A neurofarmacologista Melissa Monteiro define este momento de transe como a imersão do artista em suas próprias águas, trazendo de lá a sua cena, as imagens impressas na tela de sua carne. Nesse sentido, é uma epifania que dá vazão ao inconsciente sendo assim, mais do que um processo de criação.
Desta maneira, Cabral (como é chamada na comunidade artística em Diamantina) demonstrou seu entendimento de transe, como sendo a sua resposta fisiológica e focada em situações que se submete pelo próprio desejo, ao mimetismo das cores. O cenário no espaço do museu, composto a respeitar os limites prediais auxiliaram nesta composição. Revestidas de tecido, as paredes foram telas desta obra viva.

São ações de abertura para a arte contemporânea como esta, que tem permitido à histórica Diamantina olhar para o mundo. Aqui povoam artistas de várias partes do país. E por isso, a cidade de Chica da Silva ainda permanece como a Athenas do Norte. Cidade que recebeu forte influência das artes medievais, impressas em suas igrejas barrocas e rococós, e também na moderna música popular brasileira. E agora a contemporânea arte viva da performance de Rafael Cabral. 

quarta-feira, dezembro 07, 2016

Esse leitor – SOU EU!


Discurso para os alunos do 3º Ano do Colégio Diamantinense.
Terceirão...

   É com grande satisfação e orgulho que lhes envio esta mensagem. Chega a ser repetitivo o quanto sou grato por ter estado com vocês durante a jornada educativa. Lembro-me da primeira vez que os vi, há dois anos, e da forma que fui recebido. Alguns com desconfiança, outros mais receptivos. E posso afirmar com extrema certeza, eu não os escolhi como alunos, mas vocês me escolheram como professor.
   Não posso deixar de recordar que durante nossa trajetória ganhamos mais pessoas para nosso clã – que se tornou de fato uma família – e também as perdas. Aqui rendo minha homenagem à aluna Yasmim. Sim, uma homenagem sincera. Pois tive o prazer de conhecê-la, saber de suas qualidades e defeitos; e sou feliz por ter partilhado com ela momentos inesquecíveis, e por ter lido parte da “estória” que ela escreveu. Hoje ela não mais habita esse mundo, mas suas marcas por nossas vidas são magistrais.
   Há algo que talvez jamais tenha tratado com vocês. O Robson que chegou para ministrar as aulas de Redação no primeiro ano; é outro Robson que ministrou Literatura ao terceiro. Vocês me moldaram! Amadureceram-me e transforam o profissional que sou. Se hoje estou trilhando novos caminhos em minha profissão agradeço ao colégio Diamantinense, com todos os seus profissionais, seus alunos, e ao terceiro ano de 2016, por me motivar e proporcionar que tal evolução pudesse ocorrer em minha vida. Mesmo quando as minhas convicções e crenças foram, ou são divergentes com o esperado.
   Entre vocês tenho alunos que são meus fiéis amigos – sei que posso confiar sem medo – e aqueles que poderei bater um papo legal. Mas em todos, no geral, vejo-os como pessoas boas e de bem.

Obrigado, obrigado e obrigado.

   Quem os agradece não é somente o professor, mas também o escritor, o pesquisador, o sátiro, o religioso, o controverso, o enérgico, o sentimental, o extremista, o palhaço, o amigo, o bipolar (discordo disto, mas tudo bem – nunca pensei sofrem tal humilhação) enfim... O ser humano que sou.

   Valeu demais por me respeitar. Por me ouvir os conselhos, e por mostrar que estou no caminho certo.

   Todo o ser tem uma capa, quando não da ignorância, da inteligência – que pode ser reeditada com a produção do conhecimento. Mas o interior, esse é composto de folhas em branco, prontas para serem escritas. Desde a primeira folha até a última, a vida pede literatura. E cada um, enquanto ser vivo nasce produzindo narrativa, que possuí fim apenas com a morte. A verdade é essa: a vida é um contar de “estórias”. O terceiro ano do ensino médio de vocês foi um pequeno capítulo da literatura que construíram. “Estórias” essas individuais, mas que se misturaram no coletivo, e que não houve um protagonista, mas teve um leitor. Que se debruçou com vontade, com gana, que riu e chorou. Este que não se satisfez com os pequenos finais, mas que sempre pediu mais. Esse leitor – SOU EU!

SUCESSO AOS OUTROS, POIS O DE VOCÊS JÁ ESTÁ GARANTIDO!
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