domingo, fevereiro 19, 2017

E SE OS ORIXÁS VIVESSEM ENTRE NÓS?



E se os orixás vivessem entre nós?
Essa foi a pergunta que me motivou a escrever:
SEREIA PRESA NA CAIXA D’ÁGUA.
Capa de Marcial Ávila e Leonardo Ramaldes, editado por Madrepérola.
Um percurso de dúvidas, alegrias, mitos e muito mistério. Apresento um trecho para motivar.
Boa leitura!!!



O EMBATE ACADÊMICO
 Era um dia ensolarado como outro qualquer. Na sala do curso de Ciências Sociais, na aula de Antropologia, a falta de ventilação fazia os alunos suar além do normal. Sentada no canto da sala estava Ágata. Com um vestido florido azul e um turbante amarelo. Tentava não demonstrar o calor que sentia. Estava quase retirando o turbante. Foi a lembrança de não ter penteado os cabelos naquele dia que a impediu.
Em dado momento o professor provocou a sala com a pergunta:
— O que são orixás?
A turma permaneceu em silêncio. Ágata afundou-se mais na cadeira. E clamou em sua mente: — Não pergunta para mim... Não pergunta para mim... Não pergunta para mim – suplicante – Por favor!
Todos sabiam que morava no terreiro vó Conga, e quando o assunto religiões afro-brasileiras vinha à tona, era solicitado que discursasse. Não tinha vergonha de sua religião, ao contrário. Entretanto percebia com facilidade quando seus colegas de faculdade tinham verdadeiros interesses ou a simples preguiça de buscar informações. Por isso, sentia-se com frequência abusada por perguntas, que julgava demasiadas tolas:
— Ágata poderá nos dizer, não é Ágata? – era Zahi, com um sorriso sarcástico no canto dos lábios.
Todos se voltaram para ela. Sorriu em simpatia para o rapaz, mas na verdade queria que mordesse a língua.
Por um breve instante recordou quando ele, audacioso lançou uma cantada através do site de fofocas da faculdade. Ela inocente trocava informações acadêmicas com outros alunos. Entre as informações e dicas das aulas, alguns buchichos sobre namoro e paquera.  Quando de repente a tela de privacidade abriu em sua página da web. Era Zahi, que soltou a queima roupa:

Ágata
Linda
Ágata
TE AMO!

Não teve como não achar graça, nunca haviam se dirigido a palavra, apenas pequenos olhares, geralmente provocativos. Então ela o torpedeou:

Das duas, uma: Ou vc tá doidão ou tá de zueira?

O papo parou ali.

Ainda calada olhou para o professor em busca de socorro. Na esperança que tomasse a dianteira, e desse a resposta:
— Quer responder Ágata? – inocentemente questionou o professor.
Antes que optasse em abrisse a boca, Zahi falou.
— Muita gente acredita que os orixás são seres inferiores, perversos e de pouca luz. Ou, então, chegam a defini-los como criaturas demoníacas, com grande poder de destruição, usados somente para o mal – em sarcasmo ergue-se com os braços abertos em desculpa – sem ofensas aos evangélicos presentes. – sentou-se novamente. – Os orixás são seres divinos criados por Olorun, que o auxiliaram na criação do universo e de todos os seus componentes. Eles, os orixás, ganharam a função de intermediários entre o criador e a criatura. É através deles que podemos tentar chegar um pouco mais perto de Deus ou de Olorun, seja lá como quer chamar, e... – foi interrompido.
— Se você queria responder por que indicou meu nome? – de sorriso largo alfinetou-o Ágata.
Zahi ficou sem graça, suava mais que o calor da sala proporcionava. Olhou para a moça de turbante sentindo que naquele momento havia conseguido o que sempre desejou; chamar sua atenção. Desde o início do curso havia se encantado com ela. Queria aproximar-se, conversar, conhecer aquela garota baixinha e colorida, mas se retraia, por medo ou falta de coragem:
— Desculpa! – disse sincero.
— Vou pensar no seu caso... E, os orixás são, – continuou como se nada houvesse acontecido. – para as religiões de matriz africana, os donos da nossa cabeça, ou ori, e nossos protetores individuais. Buscam transmitir seus conhecimentos. Segundo acreditamos, houve uma grande ruptura entre os seres humanos e os orixás. Antes eles viviam lado a lado, cada um podendo visitar o mundo um do outro. No caso a Terra, conhecida como ayé e o céu, chamado de orun. Estavam ligados um no outro e não existiam barreiras. Algumas mitos contam que, até um ser humano desrespeitar a ordem estabelecida por Olorun, entrar em um local proibido. Isso não foi perdoado, e a separação tornou-se inevitável. Por fim, Oxalá soprou o seu hálito divino sobre ayé, criando o ar atmosférico, que seria daí em diante, a barreira entre esses dois mundos. – fez uma breve pausa – Mas, acredito que o Zahi deva saber disso, já que sua mãe escreveu alguns livros sobre a mitologia africana a afro-brasileira, não é?
A turma gargalhou com a tirada que Ágata deu a Zahi. Ela o encarou como uma águia encara sua presa.


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